AYRTON VIGNOLA/AE
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'EUA deram segundo passo em acirramento da guerra comercial', diz Barral

Para ex-secretário do Ministério do Desenvolvimento, a decisão de classificar os chineses como manipuladores cambiais, tomada pelo governo Trump, deve levar a moeda chinesa a cair ainda mais

Entrevista com

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento

Douglas Gavras , O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2019 | 15h37

A decisão dos Estados Unidos de classificar a China como manipulador cambial, na última segunda-feira, 5, após uma forte desvalorização do yuan (a moeda chinesa) em relação ao dólar, em plena guerra comercial, deve fazer com que o governo Trump busque, legalmente, novas formas de impor tarifas ao país asiático, avalia o ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento e sócio-fundador da consultoria BMJ, Welber Barral.

Ele também diz acreditar que a medida pode ter o efeito contrário ao desejado pelos Estados Unidos, levando a uma desvalorização da moeda chinesa e ao acirramento do conflito comercial entre os dois países. A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao Estado.

Como funciona a declaração de manipulação cambial, por parte do governo Trump contra os chineses?

O governo americano tem, previsto na legislação, a possibilidade de declarar que um outro país é manipulador de câmbio. Isso poderia permitir que o presidente dos Estados Unidos, legalmente, adotasse tarifas maiores contra os produtos chineses. Na prática, isso é uma coisa que Trump já está fazendo, mas ele dá um segundo passo no acirramento do conflito comercial entre os dois países.

Na prática, quais seriam os próximos passos?

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos vai ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para entrar em negociação com o país acusado de manipulação. Caso o contrário os EUA podem impor várias sanções. A ação tem um valor principalmente simbólico, de buscar meios legais para impor novas tarifas.

A questão seria intermediada pelo FMI?

Sim, o FMI seria o intermediador, neste caso.

A denúncia de manipulação do câmbio pelos chineses não é uma questão nova, correto?

Não, mas esta é a primeira vez que a China é acusada de manipular o câmbio desde 1994. Na época do governo de Barack Obama, que antecedeu Trump na Casa Branca, houve várias discussões de que o presidente deveria fazer o mesmo que Trump está fazendo agora, mas ele não fez, justamente pelo efeito político de acusar um outro país de manipular o câmbio.

A medida não foi exagerada?

Donald Trump se acha um especialista em negociação, ele quer colocar mais pressão sobre os chineses. Os americanos apostaram que as tarifas que vêm sendo impostas desde o ano passado fossem forçar a China a aceitar exigências, principalmente. Só que a China até agora tem retaliado e os EUA respondem com novas retaliações.

A acusação de manipulação do câmbio pode ter o efeito esperado pelos Estados Unidos?

Acredito que não. É como uma profecia autorrealizada: enquanto os Estados Unidos colocam mais tarifas contra a China, a moeda chinesa cai mais ainda. A China tem muita intervenção estatal na economia ainda, mas, se olharmos tecnicamente, as medidas americanas pressionam para baixo a moeda chinesa.

Esse novo passo da guerra comercial deve trazer algum efeito para o Brasil?

Um conflito assim faz diferença para o mundo todo. Ter as duas maiores potências do planeta em conflito gera uma instabilidade que afeta os custos de frete, de seguros e a previsibilidade de preços. O Brasil, particularmente, aumentou a venda de commodities, como soja, para China, mas ainda não conseguiu ocupar o mercado americano com produtos industrializados brasileiros que os EUA deixaram de comprar dos chineses. O País não conseguiu ganhar mercado e competir com outros países asiáticos, como Vietnã e Coreia do Sul.

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