EFE/Laurent Gillieron
EFE/Laurent Gillieron

EUA dizem ao Brasil que este não é melhor momento para pleitear vaga na OCDE

Estados Unidos afirmaram que a OCDE precisa passar por uma reformulação e que não seria adequado que países estivessem pleiteando uma vaga em meio a esse processo

Célia Froufe

19 Fevereiro 2018 | 19h48

LONDRES- Pela primeira vez os Estados Unidos falaram de forma mais clara ao Brasil que este não é o momento mais adequado para o País pleitear uma vaga na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em encontros nos últimos dias com representantes do Departamento de Estado e da Secretaria do Tesouro norte-americanos, o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Marcello Estevão, recebeu a orientação de aguardar outro momento para se tornar candidato ao já chamado no passado de "clube dos ricos".

 

O Brasil fez a solicitação formal em junho do ano passado e a expectativa era de que seu pedido fosse avaliado em agosto e setembro, mas em nenhuma das datas houve uma resposta ao país nem a outros candidatos que também tentam uma vaga na Organização. "Não é uma notícia boa para nenhum dos candidatos a candidatos", resumiu o secretário, que está em Londres após uma passagem por Nova York para reuniões preparatórias para o G-20 (grupo das 20 economias mais ricas do globo), que será realizado no mês que vem em Buenos Aires. Também concorrem a um posto os sul-americanos Peru e Argentina e os europeus orientais Bulgária, Croácia e Romênia.

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Até agora, os sinais diplomaticamente vindos dos Estados Unidos eram positivos. O último deles ocorreu em Davos, no mês passado, conforme relatou o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, após um rápido encontro com o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin. Desta vez, os EUA afirmaram que a OCDE precisa passar por uma reformulação e que não seria adequado que países estivessem pleiteando uma vaga em meio a esse processo. "Eles não detalharam, no entanto, quais seriam as reformas necessárias", disse Estevão.

Os Estados Unidos não têm poder de decisão isolado do grupo, formado por 35 países, mas é o maior orçamento da Organização e daí o seu poder de fogo. Até porque as decisões dentro da OCDE têm de ser tomadas por consenso - o voto é usado apenas em casos extremos. Os demais 34 componentes, de acordo com o secretário, já deram sinais favoráveis, ainda que informalmente, à chegada do Brasil ao grupo.

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Não se trata apenas de bom relacionamento. As contribuições financeiras na Organização levam em conta o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) de cada país e o Brasil é uma das maiores economias do globo. Pelo mesmo motivo, a OCDE também fez festa à formalização do pedido pelo País. Uma forma indireta de demonstrar apoio será por meio da divulgação em Brasília, no fim do mês, do relatório detalhado sobre a economia brasileira. Usualmente, este tipo de publicação é feita a partir da sede, em Paris.

"Todas as coisas que fazemos com todos os outros parceiros, já fazemos também com o Brasil. Não perdemos tempo", enfatizou ao Broadcast em janeiro, o secretário-geral da instituição, José Ángel Gurría, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos. "É, naturalmente, um apoio. O Brasil já é da família", continuou o mexicano.

A atuação dos Estados Unidos não está voltada necessariamente ao Brasil. O país estaria descontente com o grande volume de países que tentam ingressar na Organização - em especial, os de menor porte do leste europeu. Além disso, a administração Trump não esconde sua antipatia com organismos multilaterais. Apesar do "não" discreto que recebeu do governo americano, o secretário acha que o País está caminhando na direção correta ao pleitear vagas como esta. "Estamos fazendo a nossa parte, mas a decisão não está em nossas mãos", explicou.

Fazer parte da OCDE seria importante para um governo que busca fazer reformas que Temer passou a implantar desde que assumiu o governo. As exigências feitas a seus parceiros vão, em grande parte, na mesma direção das defendidas pela equipe econômica atual.

"A decisão da solicitação está no tempo certo e temos que ir adiantando o processo. Sabíamos que a possibilidade de ter uma decisão este ano eram baixas desde o início. Tanto que, quando anunciamos nosso interesse, previmos uma adesão em dois anos para não criar expectativa de que seria algo rapidíssimo, já na primeira ou segunda reunião", argumentou Meirelles ao Broadcast em setembro passado, durante passagem pela Europa.

O Itamaraty chegou a fazer uma simulação entre os vários órgãos do governo e verificou que o País possui 13% de pontos considerados críticos de um total de 270 instrumentos (entre recomendações e decisões) para aceder à OCDE. O Brasil já estaria pronto em 70% deles e outros 17%, em andamento. Pelos cálculos do Itamaraty, se o País for aceito, terá de desembolsar cerca de 15 milhões de euros por ano para continuar na entidade. Os valores de contribuição de cada membro são calculados em função do PIB.

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