EUA e China celebram resultado de cúpula bilateral

Segundo o Wall Street Journal Ásia, a China prometeu reformar gradualmente sua taxa de câmbio, mas não apresentou nenhum cronograma neste sentido.

Ricardo Gozzi, da Agência Estado,

25 de maio de 2010 | 17h15

O mais abrangente diálogo entre Estados Unidos e China na história das relações modernas entre os dois países terminou com algum acordo em torno de questões espinhosas ligadas ao câmbio e ao comércio e expôs mudanças fundamentais em um relacionamento que vem sendo redefinido pelos dois lados como uma parceria entre iguais, informa o Wall Street Journal Ásia.

Apesar de a China ter feito poucas concessões durante os dois dias de discussões no âmbito do Diálogo Estratégico e Econômico, realizado anualmente e encerrado hoje em Pequim, representantes dos dois lados celebraram os resultados.

A China prometeu reformar gradualmente sua taxa de câmbio, mas não apresentou nenhum cronograma neste sentido. Quanto à iniciativa chinesa para promover uma "inovação nativa", a qual companhias estrangeiras suspeitam tratar-se de uma manobra protecionista, a China deixou em aberto a esperança de uma solução no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Pequim também comprometeu-se a "trabalhar junto com os Estados Unidos e outras partes" para solucionar a crise em torno das alegações de que a Coreia do Norte teria atacado uma embarcação sul-coreana, mas não foram divulgados detalhes.

Já os EUA, que postergaram em abril uma decisão sobre se a China seria declarada ou não um país "manipulador do câmbio", também pretendem aliviar as restrições às exportações de alguns produtos de alta tecnologia, o que vem sendo buscado por Pequim há anos.

"Houve progresso", assegurou o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, ao comentar a resposta chinesa às queixas norte-americanas sobre a "inovação nativa", que ameaça excluir empresas estrangeiras de um mercado de encomendas governamentais que gira bilhões de dólares por ano. "Não resolve todas as nossas preocupações, mas nos dá uma série de princípios básicos sobre os quais podemos seguir adiante", declarou Geithner em cerimônia no Grande Salão do Povo, onde funciona o Congresso chinês.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, aludiu à piora das relações bilaterais no início do ano, quando a China reagiu com indignação a uma venda de armas norte-americanas para Taiwan e ao fato de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter recebido em Washington o dalai-lama, líder espiritual dos tibetanos.

China e Taiwan romperam em 1949, quando o grupo revolucionário liderado por Mao Tsé-tung venceu a Guerra Civil contra as forças nacionalistas de Chiang Kai-shek.

Pequim considera Taiwan parte integrante de seu território e busca a reunificação, mas ameaça deflagrar uma guerra caso líderes nacionalistas taiwaneses busquem a independência. Já o dalai-lama é celebrado em grande parte do mundo como uma figura de autoridade moral, mas Pequim o acusa de tentar destruir a soberania da China por defender a independência do Tibete. O líder religioso, por sua vez, alega estar em busca de "autonomia verdadeira", e não da independência do Tibete.

"Em uma outra época teríamos experimentado um recuo prolongado", disse a chanceler norte-americana. "Este diálogo nos ajudou a retornar rapidamente a um caminho positivo."

O vice-primeiro-ministro chinês Wang Qishan também demonstrou entusiasmo. "Nós hoje somos capazes de controlar as divergências e os problemas que surgem no decurso de nossas relações de uma maneira mais racional e madura."

Apesar de tudo isso, a expectativa do governo norte-americano de promover uma parceria abrangente e capaz de lidar conjuntamente com desafios globais como as mudanças climáticas e a reformatação da economia mundial não se confirmou devido à falta de progresso em questões cruciais.

É provável que a pressão sobre Geithner aumente depois de os EUA terem conseguido apenas algumas palavras de Pequim sobre o yuan. Ontem, o presidente da China, Hu Jintao, limitou-se a repetir a promessa de implementação de uma reforma gradual na taxa de câmbio. Setores norte-americanos queixam-se que Pequim mantém a cotação do yuan ante o dólar artificialmente baixa para ajudar seus exportadores, em detrimento dos fabricantes estabelecidos nos EUA.

Existe a possibilidade de congressistas norte-americanos darem mais espaço à China em um momento no qual parte da Europa atravessa uma grave crise da dívida e o euro mostra-se fragilizado, o que prejudica as exportações chinesas a seu principal mercado. Ainda assim, é provável que os legisladores dos EUA declarem formalmente a China como um país "manipulador de câmbio" caso Pequim não tome medidas práticas em breve.

O diálogo de alto nível de alguma forma serve de termômetro das relações entre a superpotência global e o gigante asiático que ampliou sua influência internacional ao atravessar com habilidade o período de turbulência provocado pela mais recente crise financeira internacional. Os EUA mandaram à China uma delegação de mais de 200 funcionários, uma das maiores já enviadas por Washington ao exterior.

Ao término do diálogo, o professor Eswar Prasad, professor da Universidade Cornell e ex-diretor do departamento para China do Fundo Monetário Internacional (FMI), avaliou que "os dois lados podem declarar-se vitoriosos, pois expuseram claramente suas queixas e progrediram em temas caros a seus públicos internos". As informações são da Dow Jones.

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