EUA e Europa exigem uma OMC 'para todos'

Países ricos querem evitar que novo diretor defenda só os emergentes; em discurso, Roberto Azevêdo disse que atuará pelo interesse geral

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h06

Estados Unidos e Europa cobram do brasileiro Roberto Azevêdo que não seja um diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC) que apenas sirva aos interesses dos países emergentes, mas atenda também aos interesses dos ricos, se quiser terminar seus quatro anos de "governo" com algum êxito.

Ontem, entre aplausos, elogios e até um clima de celebração que há muito não se via na OMC, Azevêdo foi confirmado como novo diretor eleito da entidade - será empossado em setembro - e se apressou em prometer atuar "pelo interesse" de todos os países. Mas também advertiu que a crise na entidade exige não se perder um só minuto de trabalho. E mandou seu recado aos países: terão de negociar em "boa-fé", se quiserem tirar a OMC da crise.

O clima de festa entre os delegados se confundia com um sentimento de alívio de que o processo não acabou em novo impasse. Pascal Lamy, o atual diretor, se apressou em classificar o momento como exemplo da "unidade da família da OMC".

"Podemos deixar de lado nossas preocupações diárias e olhar o cenário mais amplo que a organização representa e seus valores: abertura de comércio para o benefício de todos, não discriminação, justiça e transparência", disse Lamy, que não economizou elogios a Azevêdo.

Representantes de 52 países tomaram a palavra e, durante três horas, também declararam sua confiança no novo diretor-geral. Até o Irã, que não faz parte da OMC, pediu a palavra para elogiar o brasileiro.

Recado. Se o clima era de festa, os recados não deixaram de ser dados. O brasileiro foi eleito graças ao voto dos países emergentes e, apesar de EUA e Europa não terem criado oposição a seu nome, não votaram no brasileiro. Ontem, esses governos insistiam que caberia ao brasileiro assegurar que não vai governar apenas para seus eleitores.

"Ele vai precisar de consenso para levar o trabalho adiante", adiantou o embaixador dos EUA na OMC, Michael Punk, ao ser questionado sobre a imagem de Azevêdo como diretor eleito pelos emergentes. "Ele sabe isso melhor que ninguém. Espero que seja sábio", afirmou.

Em Bruxelas, a cúpula da UE também insiste que Azevêdo terá de adotar uma posição de consenso se quiser manter sua credibilidade no cargo. Ou seja, não poderá atender apenas aos Brics. A Europa votou no mexicano Hermínio Blanco, mas indicou que estaria disposta a trabalhar com o brasileiro.

Mas nem por isso deixou de fazer sua campanha de pressão. Fontes na Comissão confirmaram ao Estado que, nos últimos dias, chegaram a ter conversas de bastidor com jornalistas europeus e insistiram na tese de que Azevêdo vem de um "país protecionista", o Brasil, e que essa posição era "preocupante" para alguém que será o xerife do livre-comércio no mundo.

Parte significativa de seu discurso ontem foi justamente para superar a percepção de que seria um representante dos emergentes. "Países desenvolvidos, em desenvolvimento e os menos desenvolvidos pelo mundo me deram seu voto de confiança. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para honrar sua confiança", disse. "O diretor da OMC tem o dever de trabalhar com todos para fortalecer o sistema. Em meu mandato, farei o que for possível para ajudar os membros a construir consensos."

Segundo ele, a conferência de dezembro em Bali será fundamental para a entidade. Na agenda, está um pacote de liberalização no setor agrícola e facilitação nos trâmites aduaneiros. Para Azevêdo, a OMC está em momento "crítico" e a reunião ocorre poucos meses depois de sua posse. "Não temos tempo a perder", disse.

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