Nicolas ASFOURI / AFP
Nicolas ASFOURI / AFP

EUA e Europa se dividem em relação a ‘Trump tropical’

Americanos veem novo rumo com otimismo, enquanto UE e China tentam barrar aliança entre Bolsonaro e Trump

Beatriz Bulla e Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2018 | 06h00

WASHINGTON e GENEBRA — O governo americano vê com otimismo a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil. Identificado como “Trump tropical” na imprensa estrangeira, o presidente eleito desperta atenção na Casa Branca com discurso que o aproxima do americano nos campos políticos e comercial. Na União Europeia, no entanto, há quem tema que as posições até agora isoladas de Donald Trump possam ganhar eco no discurso de Bolsonaro. Por isso, o bloco econômico corre para fechar acordos com o Brasil o quanto antes.

A interlocutores, dois assessores do governo Trump afirmaram que o republicano foi sincero quando anunciou no Twitter que a conversa com Bolsonaro ao telefone, no dia do resultado da eleição, foi “excelente” e que há um clima de otimismo com o novo governo.

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Os Estados Unidos intensificaram a aproximação com o Brasil com visitas de Estado, como a do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, em junho. Na ocasião, Pence deixou clara ao governo Michel Temer uma das pautas da política externa americana com relação ao Brasil: o endurecimento das relações com a Venezuela. Com Bolsonaro, a tendência é que esse caminho em relação ao país sul-americano seja seguido.

No campo comercial, há um longo caminho a ser percorrido. Os americanos veem chance de aprofundar as relações no campo de indústria de defesa e na negociação do uso da Base de Alcântara, no Maranhão, para lançamento de foguetes.

Ex-conselheiro da Casa Branca, Fernando Cutz sugeriu, em entrevista ao Estado, que Bolsonaro buscasse um acordo de livre comércio com os EUA. Para um integrante do governo, primeiro o Brasil precisa mostrar que deixou de ser um “País fechado” para que uma agenda de “interesse comum” possa ser implementada.

Integrantes da equipe de Bolsonaro sabem, no entanto, que Trump entrará na segunda metade de seu governo e que dificilmente ele gastaria seu capital político internamente para liberar, via Congresso, um grande acordo com o governo brasileiro. 

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No início de outubro, Trump criticou a dificuldade de fazer negócios com o Brasil. Para o governo americano, para melhorar as relações comerciais, o País precisará “fazer a lição de casa”. O mesmo serve para que os EUA apoiem a adesão do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – solicitada há mais de um ano pelo País, sem sucesso. A medida é vista como uma possibilidade de aumentar investimentos.

União Europeia. A União Europeia já se prepara para ter de mudar estratégias diplomáticas em caso de uma aliança estratégica entre Trump e Bolsonaro. “Há percepção em Pequim de que poderemos ver uma mudança importante na relação entre EUA e Brasil, com repercussão em diversos fóruns internacionais”, afirmou um diplomata chinês na ONU.

Um dos prejudicados poderia ser o grupo Brics, bloco formado por grandes países emergentes e que foi um dos instrumentos de política externa do governo Lula. 

China, UE e países árabes já se mobilizam para impedir que Bolsonaro adote uma aliança total com Washington. Para isso, já planejam pressões e mesmo uma aceleração de acordos.

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