EUA e UE alertam Pequim contra práticas ilegais de comércio

Americanos e europeus começam a perder a paciência em relação à China e alertam: chegou o momento de Pequim retirar suas práticas desleais de comércio se não quiser se ver seus produtos sofrerem para entrar nos principais mercados do mundo. Nesta terça-feira, a União Européia (UE) anuncia sua nova política comercial para a China, enquanto em Washington o governo deixa claro que não está mais disposto a aceitar atitudes comerciais de Pequim que prejudiquem as empresas estrangeiras. Tudo isso ocorre na mesma semana em que Estados Unidos e Europa conseguirão a autorização da Organização Mundial do Comércio (OMC) para iniciar a primeira disputa comercial contra a China em um tribunal internacional. Em Bruxelas, o comissário de Comércio da Europa, Peter Mandelson, deixará claro nesta terça que a China precisa reformar suas leis e manter seu compromisso de abertura de mercado, como previsto no acordo de adesão de Pequim à OMC em 2001. A nova política européia para a China ainda defende "relações equilibradas" com Pequim. Os europeus argumentam que os chineses apenas conseguiram suas altas taxas de crescimento do PIB graças às suas exportações, principalmente para a Europa. O bloco de 25 países europeus consome 19% do que China vende ao mundo. Para Mandelson, porém, as autoridades européias apenas conseguirão manter seu mercado aberto aos produtos chineses se o mesmo ocorrer no mercado do país asiático. "Só conseguiremos sustentar o argumento de abertura na Europa se a China tomar medidas recíprocas e estiver disposta a atuar pelas regras do comércio", afirmou Mandelson e a comissária de Relações Exteriores da Europa, Benita Ferrero-Waldner, em um artigo publicado nesta segunda-feira no International Herald Tribune. "Caso contrário, poderemos uma um aumento do protecionismo na Europa que já ocorre em algumas partes dos Estados Unidos", alertam os comissários. Às vésperas de completar cinco anos como membro da OMC, o país comunista é pressionado a eliminar certas práticas, como os empréstimos que os bancos locais dão a taxas de juros baixas para exportadores. Os chineses também serão pressionados a controlarem a pirataria. Bruxelas deixa claro que não hesitará em levar novos casos aos tribunais. "Para que as relações sejam sustentáveis politicamente e economicamente, a China precisa demonstrar seu compromisso com a abertura de mercado, concorrência leal e liderança responsável", afirmou a UE em seu documento de política comercial que será emitido nesta terça. O plano ainda prevê uma revisão dos acordos de investimentos e uma estratégia para as indústrias européias competirem melhor no mercado chinês, principalmente no setor de alta tecnologia. Considerada como a prioridade comercial da Europa, a China é tida também como maior desafio do continente nos próximos anos. Entre 2000 e 2005, as exportações européias à Pequim aumentaram em 69%. Não por acaso, na nova estratégia, a Comissão Européia estipula o ensino de chinês entre os diplomatas até 2011.A ofensiva de Bruxelas ainda ocorre no mesmo momento em que o presidente da França, Jacques Chirac, desembarca em Pequim para tentar fechar acordos de investimentos de empresas francesas na China. A partir desta terça, Chirac tentará convencer os mandarins da política comercial chinesa a encomendarem novos aviões da Airbus ou vagões da Alstom, além da criação de uma linha do TGV (trem rápido) entre Xangai e Pequim.Já com o déficit comercial americano com a China chegando a seu recorde de US$ 202 bilhões em um momento de eleição para o Congresso, os Estados Unidos também aumentaram o tom de voz contra a China. Nos últimos dias, a Casa Branca acusou Pequim de manter programas de subsídios considerados como ilegais na OMC. Washington não hesita ainda em levar esse debate à público na entidade, comportamento bem diferente do que vinha mantendo nos últimos meses de apenas discutir os problemas de forma bilateral. Washington ainda acusa a China de não entregar informações sobre como o governo estaria subsidiando setores como o de semicondutores, têxteis e de automóveis. Na quinta-feira, a OMC deverá instaurar uma arbitragem à pedido das potências ocidentais contra a China. O motivo é a exigência que Pequim faz para que um produto importado receba tarifas menores. O foco da disputa é o setor de autopeças. Montadores que usem mais de 60% de suas peças produzidas localmente podem importar certos itens por tarifas baixas. Para as fábricas que não seguirem a lei, a taxa sobe para 25%.Mas para os Estados Unidos, o caso não é apenas contra o setor de autopeças, e sim contra toda a prática de Pequim de desrespeitar seus compromissos na OMC. Para a China, o que está em jogo é sua política industrial. O Brasil preferiu não entrar na disputa para não atacar um outro país emergente nos tribunais internacionais. Mas diplomatas contam que o Itamaraty já sofreu em várias ocasiões com mudanças de planos no comando em Pequim sobre um tema que Brasília acreditava que já estava resolvido. Em 2005, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, confessou que levou um gravador para uma reunião com os chineses nos debates sobre as cotas para o setor têxtil. Mais tarde alegou que era apenas para garantir a tradução do que era dito pelos chineses.

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