EUA e UE trocam acusações sobre bloqueio da Rodada de Doha

A União Européia (UE) e os Estados Unidos trocaram acusações nesta quinta-feira sobre as concessões em agricultura e indústria que as duas partes consideram insuficientes para que avancem as conversas da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).Mais de 60 ministros de Comércio dos 149 países-membros da OMC reúnem-se de hoje ao dia 2 de julho em Genebra para tentar desbloquear a Rodada do Desenvolvimento de Doha, negociada há quase cinco anos.O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, marcou a reunião para que os países negociem os números e fórmulas a serem utilizadas na aplicação das reduções tarifárias sobre as importações de bens agrícolas e industriais. Ele alertou a todos que chegou a "hora da verdade" e que não há tempo para adiar mais as decisões sem arriscar o conjunto do processo. "Todos sabemos que a Rodada de Doha está em um ponto crucial", disse o comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, que reiterou que a posição da UE já é conhecida, mas acrescentou que Bruxelas "está preparada para se movimentar se os outros o fizerem". Ele disse que os países-membros da UE estão preparados para melhorar a oferta em acesso a mercados agrícolas de forma significativa, aproximando-se da proposta do Grupo dos Vinte (G-20, formados por países em desenvolvimento) se as circunstâncias forem apropriadas.Para a comissária européia de Agricultura, Mariann Fisher Boel, "as ofertas cosméticas" são insuficientes. "Queremos cortes reais em subsídios domésticos por parte dos Estados Unidos", afirmou.Bruxelas propõe uma redução média de 39% das tarifas sobre as importações de produtos agrícolas, enquanto o G-20 quer um corte de 54%."A UE não veio preparada para encerrar as negociações", disseram fontes diplomáticas americanas, que também indicaram que a oferta do G-20 "não proporciona verdadeiros cortes de tarifas no acesso aos mercados". A oferta do G-20, grupo liderado pelo Brasil, está no centro das atenções, pois enquanto os EUA a consideram insuficiente, alguns países-membros da UE acham que a proposta vai além do que a Comissão Européia pode fazer. Para Lamy, a oferta do G-20 pode representar um terreno médio para o entendimento.As fontes americanas expressaram suas reservas à oferta do G-20 para o acesso aos mercados agrícolas, e disseram que, se as reduções propostas fossem aplicadas no caso da Índia, por exemplo, que tem um pico tarifário de 140%, as tarifas ainda chegariam a 70%.A oferta de Mandelson foi rejeitada por alguns dos membros da UE, como França e Espanha. A ministra do Comércio francesa, Christine Lagarde, e sua colega espanhola da Agricultura, Elena Espinosa, consideraram que a proposta está fora da competência da Comissão Européia.O Grupo dos Dez (G-10), que reúne países industrializados e importadores de alimentos, rejeitou a aproximação do negociador europeu com as propostas do G-20. "A proposta do G-20 vai além do que consideramos aceitável. Não é um bom ponto de partida", afirmou Joseph Deiss, coordenador do Grupo e ministro da Economia da Suíça.O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, expressou pessimismo com o andamento das negociações, que na sua opinião, "não se aproximam do resultado necessário".O chanceler brasileiro considerou que, apesar da "boa vontade nas várias partes, o abismo não parece diminuir" com relação "há dois ou três meses", e lamentou que os grandes atores, como a UE e os EUA, tentem fazer com que "o peso da negociação recaia sobre os países em desenvolvimento".

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