Joshua Roberts/Reuters
Joshua Roberts/Reuters

Fed eleva juros dos EUA em 0,5 ponto, maior alta em 22 anos, mas Powell descarta aperto mais forte

Para combater a inflação, banco central americano subiu os juros e anunciou a redução do balanço patrimonial de US$ 9 trilhões, mas presidente do Fed, Jerome Powell, descartou alta mais forte dos juros nas próximas reuniões

Associated Press

04 de maio de 2022 | 15h15
Atualizado 04 de maio de 2022 | 17h29

WASHINGTON - O Federal Reserve (Fed) ampliou sua luta contra a pior inflação em 40 anos nos Estados Unidos e elevou nesta quarta-feira, 4, a taxa básica de juros de curto prazo em meio ponto percentual, no aumento mais agressivo agressivo desde 2000, e sinalizou que mais aumentos estão por vir.  Com o aumento, o banco central americano elevou os juros para uma faixa de 0,75% a 1%, o ponto mais alto desde o início da pandemia, há dois anos. 

Falando em uma entrevista coletiva na quarta-feira, o presidente do Fed, Jerome Powell, deixou claro que novas altas de juros estão chegando. "Há um senso amplo no comitê", disse ele, referindo-se ao Fed, "que aumentos adicionais (de meio ponto) devem estar na mesa nas próximas reuniões".

Ele minimizou a especulação de que o Fed possa estar considerando um aumento de juros de até 0,75 de ponto percentual. "Um aumento de 75 pontos-base não é algo que o comitê esteja considerando ativamente", disse ele.

A afirmação fez os índices de ações subirem nesta quarta. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, fechou em alta de 2,82%, enquanto o índice da Nasdaq subiu 3,19%. No Brasil, as ações também reagiram de forma positiva. O índice Ibovespa fechou em alta de 1,7%, aos 108.343 pontos.

Powell disse também que quer elevar rapidamente a taxa de juros básica para um nível que não estimule nem restrinja o crescimento econômico. Autoridades do Fed sugeriram que chegarão a esse ponto, que o Fed diz ser cerca de 2,4%, até o final do ano. 

O Fed também anunciou que começará a reduzir seu enorme balanço patrimonial de US$ 9 trilhões, que consiste principalmente em títulos do Tesouro e hipotecas. Esse valor mais que dobrou após a recessão da pandemia, quando o Fed comprou trilhões de dólares em títulos para tentar manter baixas as taxas de empréstimos de longo prazo e estimular a economia

A partir de 1º de junho, o Fed permitirá que até US$ 48 bilhões em títulos vençam sem substituí-los, um ritmo que chegaria a US$ 95 bilhões em setembro. Nesse ritmo a partir de setembro, o balanço patrimonial do Fed encolheria cerca de US$ 1 trilhão por ano. 

A redução do balanço do Fed terá o efeito de aumentar ainda mais os custos dos empréstimos em toda a economia. Ao todo, o aperto do Fed deve elevar o custo do crédito para consumidores e empresas ao longo do tempo, inclusive para a compra de imóveis imóveis, juros dos cartões de crédito e empréstimos para automóveis. 

Inflação elevada

Com a aceleração dos preços de alimentos, energia e bens de consumo, o objetivo do Fed é esfriar os gastos – e o crescimento econômico – tornando mais caro o empréstimo de indivíduos e empresas. 

O banco central americano espera que os custos de empréstimos mais altos reduzam os gastos o suficiente para domar a inflação, mas não tanto a ponto de causar uma recessão. 

Será um ato de equilíbrio delicado. O Fed sofreu críticas de que demorou muito tempo  para começar elevar os juros, e muitos economistas estão céticos de que o aperto monetário gradual possa evitar uma recessão. 

Em sua entrevista coletiva, Powell enfatizou sua crença de que "restaurar a estabilidade de preços" – isto é, conter a alta inflação – é essencial para sustentar a economia. Em sua declaração na quarta-feira, os diretores do Fed observaram que a invasão da Ucrânia pela Rússia está piorando as pressões inflacionárias ao aumentar os preços do petróleo e dos alimentos. 

Powell acrescentou que "os bloqueios relacionados à covid na China provavelmente exacerbarão as interrupções na cadeia de suprimentos", o que poderia aumentar ainda mais a inflação. 

A inflação, segundo o indicador preferido do Fed, atingiu 6,6% no mês passado, o maior patamar em quatro décadas. A inflação foi acelerada por uma combinação de gastos robustos do consumidor, gargalos crônicos na oferta e preços acentuadamente mais altos do gás e dos alimentos, exacerbados pela guerra da Rússia contra a Ucrânia. 

Efeitos 

O aperto de crédito do Fed já está tendo algum efeito sobre a economia. As vendas de casas existentes caíram 2,7% de fevereiro a março, refletindo um aumento nas taxas de hipoteca relacionadas, em parte, aos aumentos de taxas planejados pelo Fed. 

A taxa média de uma hipoteca de 30 anos saltou 2 pontos percentuais desde o início do ano, para 5,1%. No entanto, pela maioria das medidas, a economia geral permanece saudável. Isso é especialmente verdadeiro no mercado de trabalho dos EUA: as contratações são fortes, as demissões são poucas, o desemprego está perto de uma baixa de cinco décadas e o número de vagas de emprego atingiu um recorde.

Powell apontou a ampla disponibilidade de empregos como evidência de que o mercado de trabalho está apertado - "a um nível insalubre" que tenderia a alimentar a inflação. O presidente do Fed está apostando que taxas mais altas podem reduzir essas aberturas de vagas, o que presumivelmente retardaria os aumentos salariais e aliviaria as pressões inflacionárias, sem desencadear demissões em massa. 

Por enquanto, com contratações robustas – a economia adicionou pelo menos 400.000 empregos por 11 meses consecutivos – e empregadores enfrentam escassez de mão de obra, os salários estão subindo a um ritmo anual de aproximadamente 5%. 

Esses aumentos salariais estão impulsionando os gastos do consumidor, apesar do aumento dos preços. Em março, os consumidores aumentaram seus gastos em 0,2%, mesmo após o ajuste pela inflação. 

Mesmo que a taxa básica de juros do Fed chegue a 2,5% até o final do ano, disse Powell no mês passado, as autoridades ainda podem restringir ainda mais o crédito – a um nível que restringiria o crescimento – "se isso for apropriado". Os mercados financeiros estão precificando uma taxa de até 3,6% até meados de 2023, que seria a mais alta em 15 anos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.