Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

EUA retomam importação de carne in natura do Brasil, suspensa desde 2017

Compras foram travadas após o governo americano alegar 'preocupações recorrentes' com a segurança do produto

André Borges, Camila Turtelli e Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2020 | 17h55
Atualizado 22 de fevereiro de 2020 | 07h20

BRASÍLIA - Os Estados Unidos voltarão a comprar carne fresca do Brasil. A importação estava suspensa desde junho de 2017. À época, os americanos usaram como justificativa para o embargo do produto in natura a presença de lesões causadas pela reação à vacina contra a febre aftosa. De lá para cá, a importação estava restrita apenas ao alimento processado e enlatado.

A reabertura depende do envio, pelo governo brasileiro, de uma lista de frigoríficos elegíveis para a exportação do produto. Antes do embargo, 13 unidades estavam habilitadas a enviar carne aos americanos. O mercado estima um potencial de vendas aos Estados Unidos de 20 mil toneladas e US$ 80 milhões este ano.

Os números são pequenos em relação ao total exportado pelo País no ano passado, de 1,85 milhão de toneladas e US$ 7,6 bilhões. No entanto, além do potencial de crescimento, o setor considera o mercado americano como um selo de qualidade para outras nações.

“É uma ótima notícia para o Brasil. O mercado americano não é tão representativo para nós em termos de volume, mas é muito importante conceitualmente termos esse mercado aberto”, disse ao Estadão/Broadcast a ministra da Agricultura, Tereza Cristina

O superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, afirmou que a abertura acelera o processo de negociação com outros países. “Os Estados Unidos são vitrine pelos padrões de exigências e, exportando para lá, exportamos para qualquer lugar”, disse Lucchi. “Essa reabertura é um passaporte do sistema de sanidade americano dizendo que nossa carne é de boa procedência”, completou Alcides Torres, sócio da Scot Consultoria, especialista em pecuária.

Para o presidente da Associação Brasileira de Exportadores de Carne (Abiec), Antônio Jorge Camardelli, o Brasil deve exportar aos Estados Unidos matéria-prima para fazer hambúrguer. A entidade ainda não tem estimativa de quanto poderá enviar aos americanos.

Carne fraca

Demanda antiga do setor pecuário, a abertura do mercado dos EUA para a carne fresca brasileira ocorreu em setembro de 2016, após longo período de negociação. No entanto, em março de 2017, depois da deflagração da Operação Carne Fraca, pela Polícia Federal, a inspeção foi intensificada e, em junho daquele ano, a compra foi suspensa. A ação policial apontou irregularidades na inspeção sanitária em frigoríficos. 

As lesões usadas como argumento para o embargo eram causadas pela reação à saponina e foram resolvidas com a retirada desse produto, utilizado na aceleração da produção da vacina contra a febre aftosa. Além disso, desde o ano passado a dose da vacina foi reduzida de 5 mililitros (ml) para 2 ml. Uma missão americana visitou o País em janeiro deste ano e deu o aval à liberação.

Vendas suspensas

A suspensão estava em vigor desde junho de 2017, quando o secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Sonny Perdue, travou a compra do produto brasileiro, segundo ele, por causa de “preocupações recorrentes” com a segurança do produto destinado ao mercado americano. 

Na ocasião, ele informou que a medida continuaria em vigor até que o Ministério da Agricultura do Brasil adotasse ações “corretivas” para atender as exigências do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A decisão era encarada como um revés significativo para os exportadores de carne brasileiros, que haviam conseguido abrir o mercado americano para seus produtos em junho de 2015. O primeiro embarque, no entanto, ocorreu apenas em setembro de 2016. Embora o volume de exportação ainda não chegasse a ser relevante, o mercado americano, por ser um dos mais exigentes, servia de referência para que outros países decidissem comprar a carne brasileira.

Na época, o então ministro Blairo Maggi tentou reverter a decisão, sem sucesso, e chegou a declarar que era preciso entender que o Brasil estava exportando carne “para o maior concorrente que temos no mundo” e que, por isso, havia pressão grande de produtores americanos para que o embargo fosse efetivado.

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