EUA perdem US$ 200 bi com 'abismo'

Cálculo é da Casa Branca, que ontem começou a negociar alternativas para evitar corte automático de gastos das áreas social e de defesa

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON , O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h10

A negociação de um acordo no Congresso americano para evitar o "abismo fiscal" começou ontem com dois movimentos calculados. A Casa Branca divulgou a estimativa de queda de US$ 200 bilhões no consumo e de redução do crescimento da economia de 2% para 1,4% em 2013 se os benefícios fiscais para a classe média não forem prorrogados. No Congresso, um grupo seleto da bancada republicana se disse disposto a aceitar o aumento de impostos para os americanos mais ricos. Mas exige o corte de gastos sociais.

Além do acordo fiscal para os próximos dez anos, o debate envolverá também a elevação do teto da dívida pública federal, hoje em US$ 16,4 trilhões. Se não for alcançado até 31 de dezembro, US$ 560 bilhões em gastos das áreas social e de defesa serão automaticamente cortados no dia seguinte, e os benefícios fiscais atualmente vigentes seriam extintos. O governo de Barack Obama, reeleito em 6 de novembro e com posse marcada para 21 de janeiro, começará o ano sem autorização para emitir títulos públicos necessários para o pagamento de seus credores.

Trata-se da queda dos EUA no "abismo fiscal".

O relatório da Casa Branca foi estrategicamente divulgado ao final da maior liquidação anual dos Estados Unidos. Só pela internet, as vendas da tradicional Black Friday superaram US$ 1 bilhão. Elaborado pelos conselheiros econômicos da presidência, o estudo concluiu que o fim da redução de imposto de renda para os trabalhadores levará uma família típica da classe média, com ganho anual de US$ 50 mil, a recolher US$ 2.200 mais. Os benefícios concedidos nos últimos anos permitiram a diminuição desse pagamento em US$ 3.600.

O texto não apontou a recessão como consequência da ausência de um acordo. Mas o Banco Mundial não duvida dessa possibilidade. Nos cálculos dos conselheiros de Obama, a atividade será reduzida em 0,6 ponto porcentual e o crescimento real do consumo recuará em 1,7 ponto porcentual em 2013. A queda de US$ 200 bilhões no consumo é quatro vezes maior do que o total de compras feitas na Black Friday de 2011, diz o estudo.

O cenário é parecido com o de julho do ano passado. Obama continua a insistir em um "acordo equilibrado", com a revogação da redução de impostos para os americanos com renda superior a US$ 250 mil e com cortes menos dramáticos nos gastos sociais. Os republicanos se mantêm refratários a essas ideias. Naquela ocasião, o acordo alcançado não foi suficiente para impedir o primeiro rebaixamento da avaliação de risco de crédito do governo americano e a suspensão de projetos privados de investimentos.

Aversão republicana. Mas, passadas as eleições de novembro, a mensagem das urnas acentuaram a necessidade de o partido republicano rever suas posições também na área fiscal. Sua aversão ao aumento de impostos pode, em princípio, ser flexibilizada. O senador Bob Corker, do Tennessee, afirmou ontem "não estar obrigado" a seguir o compromisso firmado por seu partido há dez anos com o Americans for Tax Reform (Americanos pela Reforma Tributária), grupo contrário à elevação de impostos.

Antes de Corker, seus colegas republicanos Lindsey Graham (Nova York), Saxby Chambliss (Georgia) e Dick Durbin (Indiana) e o deputado federal Peter King (Nova York) afirmaram concordar com mudanças na tributação para aumentar a receita e, com isso, reduzir o déficit primário, de cerca de US$ 1 trilhão. "Os republicanos têm de colocar a receita de impostos sobre a mesa. Nós não geramos uma receita suficiente", afirmou Graham, anteontem, em um programa de televisão. "Mas precisamos trazer os gastos sociais também para as conversas", emendou Durbin.

Esses primeiros movimentos vieram acompanhados pela proposta do presidente da Câmara, o republicano John Boehner, de se fechar um acordo mais modesto, apenas para reduzir o déficit primário em 2013, e deixar para o próximo ano as discussões de um pacote de longo prazo de ajuste nas contas públicas. Trata-se de uma fórmula equivalente à de julho de 2011, incapaz de apontar um cenário de melhoria fiscal para a próxima década.

Outra proposta que está na mesa de negociações é a de impor um teto para as deduções fiscais. Essa sugestão daria uma saída política para os republicanos acatarem o que, no final das contas, é um aumento no recolhimento de impostos.

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