EUA propõem na OMC criar nova categoria de países emergentes

Brasil, China e Índia não fariam mais parte do grupo; Washington conseguiria maiores aberturas para poder exportar seus produtos e ainda forçaria a uma queda de subsídios no setor agrícola

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2015 | 17h28

O governo de Barack Obama quer criar uma nova categoria de países e dividir os emergentes. Em debates na Organização Mundial do Comércio (OMC), Washington passou a defender que Brasil, China e Índia não façam mais parte da categoria de "países em desenvolvimento" e que uma nova classificação seja imposta. Uma mudança nesse "mapa-múndi" redefiniria não apenas as posições dos governos na OMC, mas em todas as negociações internacionais.

Na OMC, por princípio, a categoria de desenvolvimento de cada país determina os esforços que cada governo deve fazer em prol da liberalização. Os mais ricos, por exemplo, são os que mais devem cortar barreiras tarifárias ou reduzir subsídios, principalmente na atual rodada de negociações. O grupo das 40 economias mais pobres do mundo, por sua vez, não são obrigadas a fazer qualquer tipo de cortes substanciais. 

A lógica americana, portanto, é clara: não há mais como esperar de economias como a de Pequim os mesmos compromissos que se exige de dezenas de países em desenvolvimento da África, Ásia ou América Latina. Hoje, a China recebe mais investimentos externos que os EUA, registra mais patentes que os americanos e cresce a uma taxa bem superior a qualquer economia rica. 

Fontes na OMC indicaram ao Estado que o debate tem permeado as negociações conduzidas pelo diretor da entidade, o brasileiro Roberto Azevedo. Ele, desde o ano passado, tenta relançar a Rodada Doha e estabelecer uma agenda de trabalho.  

A ideia então seria a de criar uma nova categoria de economias que, se não estão ainda nos níveis americanos e europeus, tampouco entrariam na mesma classificação de Bolívia, Guatemala, Egito ou Vietnã. De um lado, Washington conseguiria desses países maiores aberturas para poder exportar seus produtos e ainda forçaria a uma queda de subsídios no setor agrícola. 

Agricultura. O Brasil já deixou claro que não vai aceitar qualquer tipo de mudanças e denuncia uma manobra do governo de Obama. Para o Itamaraty, o que está na mente dos americanos é, de fato, impedir qualquer tipo de negociação na área agrícola. 

Washington usa o fato de que China e India têm elevado seus subsídios agrícolas para insistir no fato de que não são os americanos que precisam cortar sua ajuda aos produtores, mas sim Pequim e Nova Delhi. O argumento não é aceito pelos governos envolvidos, alertando que a renda de um produtor indiano ou chinês não se compara com a renda das multinacionais americanas que se beneficiam dos subsídios e distorcem os mercados internacionais. 

O governo brasileiro reconhece que os subsídios indianos e chineses - principalmente no setor do arroz e açúcar - podem afetar até mesmo as exportações brasileiras. Mas o Itamaraty rejeita a tentativa dos EUA de usar o argumento para modificar as bases das negociações.

O temor é ainda de que é de que a categoria acabe definindo um novo status para esses emergentes, com novas exigências não apenas no comércio, mas em meio ambiente, finanças e outras negociações internacionais.

Mais conteúdo sobre:
omc Países Emergentes estados unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.