EUA quer que Brasil sedie última reunião da Alca

Os Estados Unidos propuseram que o Brasil sedie a última reunião de ministros da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em 2004. Trata-se do encontro que deverá marcar a conclusão do acordo final e que está, portanto, sob as rédeas do novo governo eleito neste domingo. A oferta foi apresentada na última sexta-feira, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, pelo representante dos Estados Unidos para o Comércio, Robert Zoellick, ao ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer. Zoellick defendeu que haja um cuidado especial com o calendário e a gestão das negociações da Alca, que serão co-presididas pelos dois países a partir do próximo dia 2 de novembro. Em conversa com o Estado por telefone, Lafer afirmou que a proposta americana é "compreensível", do ponto de vista político. Os Estados Unidos sediariam a reunião anterior, marcada para 2003, e o Brasil ficaria com o encontro seguinte. "Parece uma idéia razoável. Dará tempo ao tempo para o próximo governo se preparar para a reunião, sem os riscos de improvisos." Indiretamente, a "polidez" dos Estados Unidos em ceder ao Brasil a organização da derradeira reunião da Alca traz consigo a pressão para que o próximo governo brasileiro se mova mais em favor do êxito das próprias negociações e da preservação do calendário já fixado, que prevê o início da vigência do acordo final em janeiro de 2005. Ao mesmo tempo, repassa ao Brasil a maior parte da responsabilidade pelo eventual fracasso das negociações ou de seu possível adiamento. O recado veio poucos dias depois da troca de declarações pouco amistosas entre Zoellick e o candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, cujo partido tem se mostrado reticente à continuidade das negociações nas bases atualmente definidas e que se refere à Alca como um projeto americano de "anexação". Ao Estado, Lafer indicou que passou ao largo da polêmica no encontro de sexta-feira e que o incidente está superado. "Zoellick conhece as declarações que fez, sabe das que Lula também fez e igualmente conhece as minhas", afirmou. Durante a conversa, Zoellick e Lafer se debruçaram nos temas que serão tratados na reunião dos ministros dos 34 países da Alca em Quito, no Equador, no próximo dia 1º de novembro. O principal negociador americano, entretanto, mostrou-se mais preocupado com os problemas do dia-a-dia das discussões da Alca, capazes de emperrar todo o processo, que nos grandes temas, como a definição de como será a negociação sobre acesso a mercados. Segundo Lafer, Zoellick expôs cinco preocupações, que coincidem com as do Brasil. A primeira é que o atual calendário fixado para a Alca seja cumprido à risca, com a conclusão das negociações no final de 2004. Isso também significa, para o Mercosul, que sua proposta de abertura de mercado seja encaminhada até 15 de fevereiro de 2003, com possibilidade de melhorá-la até 15 de junho. A segunda é a escolha dos presidentes dos nove comitês de negociação e dos três grupos de trabalho, com a indicação de pessoas experientes e com disponibilidade de tempo. A terceira preocupação de Zoellick está relacionada com o processo de transparência, ou seja, com a divulgação sem reservas dos textos em negociação. Trata-se de um meio de promover os debates nos 34 países e de envolver outros segmentos, além dos governos e das empresas. Mas também seria um meio evitar resistências doutrinárias à Alca. A quarta foi com a realização de um programa de capacitação dos negociadores dos países da América Central e do Caribe, para que possam lidar com a complexidade dos temas tratados.

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