EUA rejeitam 'culpa' por emergentes

No G-20, secretário do Tesouro americano afirma que, em vez de se queixar, países emergentes deveriam 'colocar a casa em ordem'

Fernando Nakagawa, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2014 | 02h05

SYDNEY - Os Estados Unidos lavaram as mãos e avisaram que a recente turbulência que atingiu países emergentes não é culpa dos americanos. Um dia antes da reunião de cúpula das 20 maiores economias do mundo, o secretário do Tesouro dos EUA, Jacob Lew, sugeriu que os países em desenvolvimento "coloquem a casa em ordem" e realizem reformas estruturais para evitar a desconfiança dos investidores. Caso os problemas persistam, completou, devem bater à porta de instâncias como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A poucas horas do encontro de ministros de Economia e presidentes de Banco Central do G-20, os americanos deixaram explícita sua opinião a respeito dos emergentes, que acusam Washington de culpa pela recente desconfiança do mercado com países em desenvolvimento. "Mercados emergentes precisam adotar medidas para colocar sua própria casa em ordem em termos fiscais e executar reformas estruturais", disse Jacob Lew. Ou seja, segundo ele, a reclamação dos emergentes não deve ser endereçada aos Estados Unidos.

Quebra do pacto. Emergentes reclamam que os EUA quebraram um pacto de cooperação global ao iniciar a retirada de estímulos monetários sem coordenar a ação com outros países. Desde janeiro, os EUA reduziram o programa que injeta dinheiro na economia em US$ 20 bilhões mensais. A chamada normalização da política monetária significa menor oferta de dinheiro barato ao mercado, o que tem gerado aversão ao risco e fuga de investidores de países como África do Sul, Brasil, Índia, Indonésia e Turquia.

O recado de Lew foi dado cuidadosamente em um evento paralelo ao G-20 - um seminário do Instituto Internacional de Finanças (IIF) -, uma vez que a reunião de cúpula só começa hoje. Quando países tomam as decisões corretas, argumenta o secretário americano, o mercado os diferencia entre bons e ruins. "Nós estamos vendo uma substancial diferenciação no mercado entre economias que tomaram essas decisões e as economias que não tomaram", disse Lew.

Não é só a maior economia do mundo que pensa assim. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de países ricos que promove o desenvolvimento, concorda com a posição. O secretário-geral da entidade, Angel Gurría, disse que a normalização da política monetária não é a razão dos problemas nos emergentes.

"Os países que têm elevados déficits em conta corrente e têm reformas a fazer é que estão sofrendo. Isso é um sinal, uma chamada para o despertar, que diz: acelere as reformas, acelere as reformas", disse, em entrevista organizada pelo G-20. Outros países, como o Reino Unido e até mesmo a anfitriã Austrália, indicam concordância com a tese.

Para o secretário do Tesouro dos EUA, ao contrário das acusações, a melhora da economia americana será algo positivo para os países em desenvolvimento. "Se há mais demanda, isso ajudará os mercados emergentes", disse. Lew reconheceu, porém, que "sem dúvida haverá casos de economias que estão enfrentando desafios que não poderão ser resolvidos por conta própria".

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