Euro desaba diante de incerteza da UE sobre pacote de socorro à Grécia

Euro desaba diante de incerteza da UE sobre pacote de socorro à Grécia

Moeda única tem pior cotação em dez meses com o rebaixamento da dívida de Portugal na véspera da reunião dos 27 líderes europeus

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

O momento deveria ser de alívio, mas é o nervosismo que reina na Europa. Na véspera da reunião de cúpula dos 27 chefes de Estado e de governo da União Europeia, cuja abertura ocorre hoje, em Bruxelas, a moeda única desabou ao seu valor mais baixo em dez meses, em relação ao dólar.

Dois fatores motivaram a desvalorização: o ceticismo do mercado com um acordo entre Alemanha e França para ajuda à Grécia e o rebaixamento da nota da dívida de Portugal pela agência de classificação de risco Fitch.

Em um dia de ansiedade, o euro foi a melhor tradução da turbulência que o velho continente atravessa. No final dos pregões, o euro fechou valendo US$ 1,3345 ? cotação mais baixa desde maio de 2009. Instituições financeiras como o banco francês BNP Paribas já vinham advertindo que a moeda única ainda perderia valor por causa das indefinições sobre o socorro à Grécia. Desde a última semana, a divisa adotada por 16 países perdeu dois centavos em relação à moeda americana.

A oscilação ocorreu no momento em que a União Europeia se preparava para responder a uma questão central, discutida há dois meses: se está disposta a socorrer em bloco cada país em crise de liquidez, como a enfrentada pela Grécia.

Hoje, em Bruxelas, líderes políticos dos 27 países debaterão a criação de um mecanismo automático de auxílio. "É oportuno que criemos na zona do euro um instrumento que permita uma ação coordenada e possa ser utilizado para prestar assistência à Grécia em caso de necessidade", afirmou o presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Durão Barroso.

Alemanha cede. Ontem, depois de semanas de posições ambíguas, o governo alemão admitiu a possibilidade de participar, com dinheiro público, de um plano de refinanciamento da dívida grega, avaliada em curto prazo entre ? 20 bilhões e ? 30 bilhões. Em 2010, a necessidade de financiamento do país mediterrâneo pode chegar a ? 50 bilhões.

Para suprir essa necessidade sem obrigar Atenas a buscar empréstimos no mercado financeiro ? a juros superiores a 6% ?, a alternativa defendida nos bastidores pela França era a de empréstimos bilaterais entre a Grécia e os demais membros da UE.

Sem medo de um racha interno, porém, a Alemanha, com apoio da Holanda, da Suécia e do Reino Unido, passou a pregar na última semana a intervenção pura e simples do Fundo Monetário Internacional (FMI) ? hipótese até então rejeitada pelos demais parceiros.

A solução deve ser um meio termo: dinheiro público europeu, mais FMI. O pacote de ajuda poderia somar entre ? 20 bilhões e ? 22 bilhões, sendo ? 15 bilhões do FMI, segundo informações não confirmadas.

A hipótese de participação do fundo, entretanto, segue provocando reações contrárias. Ontem, em entrevista ao jornal alemão Die Zeit, Lorenzo Smaghi, um dos diretores do Banco Central Europeu (BCE), voltou a defender a bandeira da independência em relação aos recursos externos.

"A imagem do euro seria a de uma moeda que só consegue sobreviver graças à ajuda de uma organização internacional na qual os europeus não têm a maioria e os americanos e asiáticos têm cada vez mais influência", advertiu.

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