Europa aposta em equilíbrio para voltar a crescer

Criticados por reduzir ritmo de crescimento do PIB, planos de austeridade fiscal adotados na UE viram estratégia de médio prazo

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

A cada nova reunião com jornalistas em Berlim e nas demais capitais da União Europeia, Wolfgang Schäuble, ministro de Finanças da Alemanha e um dos homens mais influentes da macroeconomia europeia, reafirma uma profissão de fé. Como os demais líderes políticos europeus, o economista aponta o excesso de gastos públicos, mesmo nos pacotes de estímulo fiscal, como o elemento detonador da crise das dívidas deste ano.

"Se grandes déficits tornassem um país competitivo, a Grécia não deveria ter problemas", costuma ilustrar. "Nenhum elemento empírico prova que os déficits favorecem o crescimento." Açoitada há seis meses pelos mercados financeiros, que levantaram dúvidas sobre a solvência das contas públicas de países como Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda, a Europa agora aposta no equilíbrio fiscal como receita de crescimento sustentável em médio e longo prazos, mesmo que represente perda do embalo em curto termo. E, a despeito das críticas, os primeiros sinais de reversão da crise e de crescimento da atividade já aparecem no horizonte do bloco.

Passado o auge dos ataques especulativos contra o euro e contra os títulos de dívidas dos países mediterrâneos, a Europa começa a olhar para o futuro com mais otimismo. Nas últimas semanas, dados positivos revelados pelo Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat) e de organismos independentes ajudaram os líderes políticos a firmarem convicção na via da austeridade fiscal, enquanto o mundo ainda lhes cobra pacotes de estímulos.

Coube à Comissão Europeia inaugurar, com discrição, a temporada de boas notícias. Bruxelas reviu para cima suas projeções de crescimento nos 27 países, apostando em 1% em 2010, contra 0,7% do prognóstico anterior, e em 1,5% em 2011. Baixo, sim, mas cada vez mais positivo.

"A melhora das perspectivas de crescimento econômico neste ano é uma boa notícia para a Europa. Nós devemos cuidar para que os riscos que pesam sobre a estabilidade financeira não comprometam essa evolução", disse Olli Rehn, comissário de Finanças da UE. "Um crescimento sustentável exige esforços de saneamento fiscal determinados e reformas que melhorem a produtividade e o emprego."

Ritmo. Para os europeus, planos de austeridade como os anunciados pelos governos da Alemanha (? 85 bilhões), Reino Unido (? 104 bilhões) e França (? 45 bilhões) tornarão o relançamento "mais progressivo", reduzindo o ritmo de crescimento entre 0,1% e 0,3%, dependendo do país, entre 2010 e 2011. Mas, no médio e longo prazos, o desenvolvimento será mais seguro e calcado em finanças equilibradas, bem ao gosto dos líderes europeus em termos econômicos.

"O governo alemão está consciente de que sua responsabilidade é promover o crescimento na Europa e no mundo. Nós o atingiremos, não acumulando dívida pública, mas desempenhando nosso papel tradicional de pilar da estabilidade", diz Schäuble.

Análises recentes sobre os rumos da economia europeia ajudaram a consolidar a convicção de que os déficits são realmente os vilões. Em junho, o Eurostat indicou que o crescimento industrial na UE - 9,5% no acumulado de 12 meses - é o mais forte da história. Em relação a 2008, a produção industrial ainda está 8% negativa, o que não tira o otimismo de alguns economistas. "Mesmo que a rota da retomada ainda seja longa, a produção industrial está em uma tendência positiva", disse Caroline Newhouse-Cohen, economista do banco BNP Paribas.

Outra reforço à convicção de que o choque fiscal é a melhor saída é a perspectiva de que a política de rigor possa ter resultados práticos em um período menor que o imaginado. Essa impressão se reforçou depois que a Grécia, grande vilã da crise, anunciou a redução de 41,6% do déficit no primeiro semestre em relação a 2009. Sinal de que a palavra dos gregos e dos demais mediterrâneos pode ser cumprida. "O objetivo para o ano é de reduzir o déficit público em 40% e nós estamos fazendo melhor do que isso", disse o ministro de Finanças, George Papandreou.

Setor produtivo. O otimismo discreto que começa a aumentar entre os governos também contagia algumas entidades privadas. A BusinessEurope, federação que representa nada menos de 20 milhões de empresas da UE, vê a opção pela austeridade como correta. "A crise das dívidas soberanas é uma fonte importante de incerteza neste momento, mas ela não deverá tirar dos trilhos a retomada, segundo nossos cenários de referência'', afirmou na quinta-feira a entidade, em nota oficial. Um dos motivos da satisfação dos empresários é que a crise das dívidas gerou um efeito colateral positivo: a desvalorização do euro, que terá impacto positivo sobre o comércio exterior de países como Alemanha e França.

A última das boas notícias vem - quem diria? - dos mercados financeiros. Segundo o gabinete Pictet & Cie., a saída de fundos de investimento dos mercados europeus abriram as portas a novas oportunidades de negócios. "As companhias europeias não têm motivos para invejar suas concorrentes americanas em termos de resultados. Elas passaram por severas reduções de custos, preveem lucros em forte alta e muitas tirarão benefícios da queda do euro."

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