Europa atenta à Grécia

A França foi às urnas, e deu a maioria absoluta ao Partido Socialista. Logo, a Câmara dos Deputados aprovará todas as decisões do Eliseu.

Gilles Lapouge,

19 de junho de 2012 | 03h09

Consequentemente, François Hollande dispõe de "plenos poderes". E precisará mesmo desses poderes porque a situação da França, numa Europa à deriva, parece precária.

Por isso, o acontecimento essencial do domingo não foi o pleito francês, mas o da Grécia. A noite toda, enquanto se confirmava a vitória dos socialistas na França, ouvidos mais finos ficaram atentos ao que acontecia em Atenas. Das eleições gregas poderia resultar uma catástrofe: o fim do euro na Grécia. A noite toda, a Europa temeu esse desastre. E então veio a divina surpresa: não. A Grécia não sairá do euro. Pelo menos, não no futuro imediato! Resumindo: a Grécia vem se debatendo há dois anos. Seu endividamento é gigantesco e ela não tem condições de funcionar. A Europa correu em sua ajuda: a troica (FMI, BCE e UE) concedeu-lhe montanhas de dinheiro, mas desde que a Grécia implementasse uma política de austeridade extremamente cruel.

O povo grego, reduzido a alimentar-se de azeitonas, recusou submeter-se aos planos rigorosos da troica. Vários governos caíram em Atenas, e as eleições de domingo giraram em torno da seguinte interrogação: os gregos escolherão um governo que aceite as ordens da troica, ou, ao contrário, rejeitarão essas ordens, o que teria como efeito imediato a saída do euro? O partido conservador Nova Democracia, o que aceita as medidas de austeridade e consequentemente a ajuda maciça da troica, venceu com 29,7% dos votos. Ele teria de formar um novo governo de coalizão associando-se aos socialistas do Pasok que também aceitam o caminho íngreme da austeridade. Nessa hipótese, todos estariam salvos. O euro estaria salvo. A Grécia salva. A Europa salva. Entretanto, a espada de Dâmocles continua oscilando sobre a Grécia e a Europa.

Por duas razões. A primeira é que, ainda que a direita da Nova Democracia tenha vencido, foi seguida muito de perto por um partido de esquerda totalmente novo, o Syriza, que recebeu 26,9% dos votos, recusa os planos da troica e rejeita a política do rigor, com o risco de fazer com que a Grécia saia do euro. Se o vencedor de domingo, o partido Nova Democracia, não entrar num acordo com o Pasok, será talvez preciso que o Syriza assuma o controle dos negócios da Grécia e, nesse caso, haverá um perigo extremo para o euro.

E há outro risco também. O líder do Nova Democracia (ND) que venceu ontem, Antonis Samaras, é um personagem imprevisível. Ao longo de sua carreira, ele caminhou em zigue-zague, mudando bruscamente de contexto e de programa. Já foi ministro de Negócios Exteriores de um nacionalismo tão frenético que foi obrigado a romper com seu partido, a ND, e criou outro, Primavera Democrática. No entanto, depois de dez anos de insatisfação, voltou a trabalhar para a ND até assumir sua direção.

Naquela época, há três anos, ele era violentamente hostil à ideia de aceitar, ao mesmo tempo, a ajuda da Europa e uma política de austeridade. Hoje, quando tem a possibilidade de se tornar o chefe de governo da Grécia, volta a mudar sua posição e, ao contrário, é o principal defensor do plano de austeridade imposto pela Europa. Mas, vez por outra, toca outra música e jura que pedirá aos seus parceiros europeus um abrandamento do rigor do plano.

Esse é o homem que hoje recebe em suas mãos a Grécia. Além do que, ele pertence a uma família muito conceituada. Sua bisavó foi uma famosa poetisa nacionalista, Penélope Delta, que se suicidou no dia em que os alemães entraram em Atenas, em 1940. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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