Europa e EUA divergem sobre ações anticrise

Presidente em exercício da União Europeia disse que o plano do governo Obama levará o mundo ''ao inferno''

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2009 | 00h00

A uma semana da cúpula do G-20 (grupo dos 20 países mais industrializados), Europa e Estados Unidos elevaram o tom de críticas e explicitaram as divergências sobre como resolver a crise. Ontem, no Parlamento Europeu, o primeiro-ministro da República Tcheca, Mirek Topolanek, presidente em exercício da União Europeia, atacou o plano econômico americano e acusou o presidente Barack Obama de propor uma saída que levará o mundo "ao inferno". Obama, por sua vez, quer que a Europa pague sua parte na recuperação mundial. Às vésperas de sua primeira viagem oficial à Europa, Obama convocou anteontem todos os países a fazer sua parte para promover um estímulo da economia mundial. Sua avaliação é de que é "injusto" que alguns tomem medidas extraordinárias enquanto outros, que serão beneficiados, não fazem o mesmo. O recado foi explicitamente aos europeus. Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que os americanos já anunciaram planos equivalentes a 5% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Já os europeus lançaram pacotes mais modestos. Na Itália, a ajuda representa 0,2% do PIB. Na França, o pacote é de 0,7% do PIB. O Fundo Monetário Internacional pede que 2% do PIB mundial seja usado para relançar as economias. O esforço ainda teria de ser coordenado, para ampliar os benefícios a todos. Em sua mensagem ao Parlamento, o primeiro-ministro tcheco alertou que o pacote de Obama minaria a estabilidade do mercado financeiro. "O secretário do Tesouro americano fala de uma ação permanente e, em nosso conselho (da UE), ficamos bastante preocupados", disse. Praga criticou as medidas protecionistas nos pacotes americanos, como a cláusula Buy American que garante que o dinheiro dado pelo Estado a setores seja usado na compra de bens americanos."Ele fala de uma ampla campanha de estímulo dos Estados Unidos. Todos esses passos, essa combinação e sua permanência é um caminho ao inferno", disse Topolanek. "O grande sucesso da UE é que recusamos seguir esse caminho." Os governos europeus querem maior regulamentação do sistema financeiro internacional.Para Alemanha, França e outros governos, os pacotes que já somam US$ 543 bilhões dados pelos países europeus precisam primeiro começar a ter um efeito antes que novos planos sejam propostos. A solução americana também é vista com cautela pelo presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet. Em entrevista ao Wall Street Journal, ele disse que maiores gastos poderiam gerar a necessidade futura de mais impostos e inflação. "Precisamos garantir que vamos ter uma estratégia para sair." Dominique Strauss-Kahn, diretor do FMI, também fez a mesma ressalva. "Não podemos criar uma bolha de dívida e de inflação para a próxima geração."Já Gordon Brown, primeiro-ministro britânico e anfitrião do G-20, pediu anteontem, em Nova York, um "estímulo fiscal e monetário mundial".

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