Europa faz corte de 220 bi para tentar sair da crise

Ontem foi a Itália, que se ofendia ao ser comparada a Grécia, que apresentou seu plano; mas europeus já temem 'década perdida'

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE/ GENEBRA

Em uma tentativa de dar sinais claros ao mercado de que vai lidar com seu déficit, a Europa já acumula um corte de 220 bilhões em seus orçamentos nacionais em quatro anos. O valor seria equivalente a R$ 500 bilhões, um corte de mais de 50% do orçamento público brasileiro em um ano.

Ontem, foi a vez da Itália anunciar seus cortes, enquanto a Comissão Europeia já alerta que, sem reformas, a Europa corre o risco de entra rem uma "década perdida".

A crise que começou na Grécia não apenas se proliferou pela Europa como agora exige que até os países que se diziam imunes que iniciem cortes profundos em seus gastos. Para sindicatos, é o "modelo social europeu" que está sendo atacado com os cortes em direitos conquistados nos últimos 50 anos. O valor de 220 bilhões ainda pode aumentar nas próximas semanas diante da indicação de que um número cada vez maior de governos vem preparando planos de austeridade, como é o caso da Dinamarca.

O comissário de Economia da UE, Olli Rehn, alertou ontem que, sem uma reforma, a Europa enfrentará uma "década perdida" entre 2010 e 2020. Se as reformas para permitir crescimento não vierem, a economia irá se estagnar. Ele ainda deixou claro que foi a falta de perspectiva de crescimento e a dívida que fizeram euro desabar a seu nível mais baixo em quatro anos.

Segundo Rehn, o crescimento do PIB europeu não deve passar de 1,5% por ano até 2015 se uma mudança profunda não ocorrer. O presidente da UE, Herman Van Rompuy, também rejeitou a tese de que, com os cortes, a recuperação seria revertida. Analistas e partidos de oposição vem alertando que os planos de austeridade podem colocar a Europa de volta no caminho da recessão. Van Rompuy aposta que isso não ocorrerá e que investidores voltarão a uma Europa mais estável.

Já com reformas e cortes em gastos, a projeção da UE é de um crescimento de mais de 2% ao ano até 2020 e a criação de 10 milhões de postos de trabalho. A reforma incluiria a abertura de mercados e o fim de burocracias. Mas também exigirá uma reforma trabalhista e de pensões.

Em toda a Europa, sindicatos vem se mobilizando para lutar para garantir que direitos conquistados por décadas sejam mantidos, como a aposentadoria aos 60 anos, férias de seis semanas e licença maternidade ampliada.

Cortes. Mas a Comissão Europeia alerta que não há outra saída. Ontem, foi o governo italiano que se rendeu às evidências. Por meses, Roma acusou de "leviano" quem ousasse comparar sua economia à de Atenas.

Ontem, o discurso foi bem diferente. Depois de Grécia, Espanha, Reino Unido e vários outros governo, foi a vez de Roma anunciar um plano drástico de cortes de gastos públicos de 26 bilhões de euros em dois anos.

Mas ao contrário de vários governos, o de Silvio Berlusconi não hesitou em cortar recursos em áreas consideradas como essenciais, como saúde. Em dois anos, 1,5 bilhão serão retirados da área.

Por três anos, os salários de funcionários públicos serão cortados ou congelados. A idade mínima da aposentadoria vai aumentar e número de funcionários públicos deve diminuir em 10%. Com 3,5 milhões de funcionários públicos, a Itália é o quinto país europeu onde os gastos com a administração mais aumentou em dez anos. A alta foi de 42%, ante 17% na Alemanha.

O repasse de recursos para governos locais também será atingido, o que pode significar problemas maiores para regiões ainda deprimidas, como o sul da Itália.

Para aumentar a arrecadação, pedágios serão criados em regiões como a de Roma e taxas serão cobradas sobre transações de mais de 5 mil.

Roma ainda promete cortar salários de ministros, de parlamentares e de diretores de estatais. Mas sindicatos voltaram a protestar, alertando que quem sofrerá mais serão os trabalhadores.

Rombo britânico. No Reino Unido, até a rainha Elizabeth II usou seu discurso ontem para abrir a nova sessão do Parlamento para insistir na questão do corte de gastos e indicando que os esforços de redução da dívida serão a prioridade número 1 do governo. Na segunda-feira, Londres anunciou redução de 7 bilhões nos gastos públicos para começar a tapar o buraco mais profundo de 160 bilhões.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.