Europa não investe. Desinveste

A Europa que enfrenta risco crescente de recessão, não só não investe mas está desinvestindo. Desde o início da crise da dívida soberana, há quatro anos, as empresas globalizadas retiraram da região cerca de 350 bilhões. Estão fechando fábricas, reduzindo drasticamente a produção, despedindo e a maioria indo em busca de mercado em países emergentes.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h07

Por seu lado, o Banco Central Europeu informa que desde 2008 os investimentos privados vêm caindo a uma taxa anualizada de 10%. Não é um fato novo, mas foi agora dimensionado em estudo da respeitada empresa de consultoria americana McKinsey, obtido pelo Financial Times e divulgado no dia 10. Pode ser encontrado também no site do Valor. Pela grande importância das informações, a coluna pede autorização a ambos os jornais para repassar aos leitores. O movimento de fuga acentuou-se no decorrer de 2012, sem dar sinais de reversão.

Dúvida não se sustenta. Os economistas ainda estão divididos quanto ao início da recuperação europeia, como assinalamos em coluna anterior; alguns acreditam que, mesmo lentamente, ela está vindo. Outros só veem um cenário de estagnação e recessão ainda este ano e, assinalam os mais pessimistas, pode durar até uma década. Com a intervenção do BCE em agosto, oferecendo liquidez aos bancos, há uma fase de distensão, afastando-se o risco fatal da quebra de algum banco. Mario Draghi tem sido exemplar ao enfrentar quase solitariamente a crise da dívida soberana. "A situação melhorou, mas o enfraquecimento da zona do euro vai se estender a 2013. A recuperação deve ocorrer gradualmente."

Os estudos da McKinsey e outras consultorias divulgados esta semana pelo jornal britânico, porém, dão razão aos céticos. A pesquisa com grandes empresas mostra que elas não só estão deixando de investir na UE, como não têm intenção de voltar.

Outra respeitada empresa de consultoria, a Grant Thornton, depois de ouvir 12 mil executivos em 41 países com negócios e investimentos na União Europeia, constatou que em geral as empresas globalizadas perderam perto de US$ 2 trilhões em consequência da crise da dívida soberana que abala a Europa desde 2009, segundo com o Financial Times.

Emergentes, o caminho. Ainda de acordo com as entrevistas com 12 mil executivos, as empresas globalizadas - não só europeias - estão indo para mercados emergentes, para aproveitar o custo menor de produção, eliminando milhares de empregos.

"O saldo de caixa das companhias americanas está muito alto, especialmente no setor de alta tecnologia. Mas, no geral, elas não estão investindo esse dinheiro", diz Walt Shill, um diretor sênior da Accenture. A consultoria americana entrevistou mais de 450 executivos de grandes empresas para uma pesquisa sobre investimentos globais, que será publicada nas próximas semanas. "O que ouvimos é que eles continuam investindo nos mercados emergentes em crescimento acelerado."

De acordo com as pesquisas, apenas 3% dos executivos americanos aumentaram seus investimentos na zona do euro desde o começo da crise, enquanto 25% deles elevaram os investimentos nos mercados emergentes. Pouco mais da metade diz já ter começado, ou estar para começar, a cortar os custos com a transferência de negócios para esses mercados que, mesmo em ritmo menor, continuam registrando crescimento e aproveitando a liquidez provocada pelas emissões de mais de US$ 3 trilhões do Banco Central Europeu e do Federal Reserve também. Há recursos excedentes no sistema financeiro, mas não para a Europa.

Os executivos ouvidos pelas três consultorias reconhecem que houve uma pausa com a intervenção do Banco Central Europeu, que decidiu em agosto emitir euros para oferecer crédito a custo real negativo e liquidez aos bancos. Essas empresas deixaram provisoriamente de lado os planos para enfrentar um possível rompimento do euro, mas eles não voltaram com os seus dólares, ienes e yuans, diz a pesquisa.

Para a Thornton, isso significa elas deixarão de gerar € 543 bilhões em receitas que de outra forma gerariam entre 2009 e 2020, segundo o estudo.

O que eles temem, acrescenta, é uma estagnação profunda e prolongada se não houver uma reação dos governos, apegados há quase quatro anos apenas às medidas de austeridade fiscal. Reação, dizem eles, que não está sendo vista.

São contra empresas. O que se vê é exatamente o oposto. O fato de o abrandamento da crise ter sido seguido por uma ascensão de políticos antirreformas em países da zona do euro como a França, a Grécia e a Itália não está ajudando.

"Estamos vendo alguns sinais preocupantes de retórica contra as empresas entre alguns dos líderes europeus e acreditamos que essa não é uma postura produtiva e cooperativa", diz Ian Hudson, presidente das operações do grupo químico americano DuPont para a Europa, Oriente Médio e África.

Diante do resultado das pesquisas e entrevistas com os executivos de empresas globalizadas e a inércia dos governos europeus, 2013 começa sem esperanças.

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