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Europa perdeu uma Espanha na crise

Estudos apontam que continente sofreu contração de US$ 1,4 trilhão e pode levar até 25 anos para retornar aos mesmos padrões sociais de 2008

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , MELINA COSTA , ESPECIAL PARA O ESTADO / BERLIM, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h14

Milhares de desempregados, mais de uma dezena de governantes que não sobreviveram no cargo, aumento da pobreza e da desigualdade, uma classe média que agoniza e um continente em crise de identidade. Cinco anos depois da eclosão da crise que começou nos EUA, é a Europa que ainda paga seu maior preço. Para salvar o euro, o bloco adotou uma receita radical de austeridade.

O resultado foi um continente asfixiado. Alguns estudos já alertam que a Europa poderia levar 25 anos para voltar a ter o padrão social existente em 2008. Dados oficiais apontam que, entre o início de 2009 e o início de 2013, o PIB da zona do euro sofreu contração de US$ 1,4 trilhão, o equivalente a ter deixado pelo caminho uma economia do tamanho da Espanha, a quarta maior do bloco europeu.

A recessão foi a mais longa desde os anos 30 e eliminou da Europa quase uma Índia inteira, onde o PIB é de cerca de US$ 1,8 trilhão. Em 2009, o PIB europeu era de US$ 13,5 trilhões. Hoje, é de US$ 12,1 trilhões.

Praticamente todos perderam. Os dados mais dramáticos são certamente dos países do sul da Europa. A economia grega passou de US$ 341 bilhões para US$ 249 bilhões, encolhendo em quase um terço. Na Itália, a queda foi equivalente ao desaparecimento de uma Grécia inteira. O PIB passou de US$ 2,3 trilhões para US$ 2 trilhões. Portugal perdeu US$ 40 bilhões de sua economia, chegando a um total de US$ 210 bilhões. A Irlanda, que chegou a ser considerada um "tigre celta", viu seu PIB cair de US$ 262 bilhões para US$ 210 bilhões em apenas cinco anos.

Outro grande perdedor foi a Espanha, que se tornou o símbolo de uma política de austeridade que levou o país a uma crise social inédita. Em menos de cinco anos, o PIB caiu de US$ 1,59 trilhão para US$ 1,34 trilhão.

Mas não foram apenas os países resgatados que perderam. França e Alemanha, o eixo de crescimento do bloco, também encolheram. Ao contrário dos países do sul, a queda de seus PIBs ocorreu apenas em 2009. Mas a estagnação vivida desde então impediu que voltassem aos níveis pré-crise. Na França, o PIB caiu de US$ 2,8 trilhões em 2009 para US$ 2,6 trilhões em 2013. Na Alemanha, a redução foi de US$ 300 bilhões, chegando a US$ 3,3 trilhões.

Hoje, analistas dizem que parte do problema foi a recusa de políticos em aceitar a gravidade da crise. Durante semanas, ainda em 2008, líderes da época, como o espanhol José Luis Zapatero, diziam não haver risco de recessão no país.

Mas os eventos superaram o discurso. O temor da quebra de bancos exigiu que os europeus injetassem apenas nos três primeiros meses da crise cerca de US$ 1,8 trilhão para nacionalizar, socorrer e comprar instituições financeiras. Alguns não agiram com a rapidez necessária e, na Islândia, um país inteiro derreteu com a quebra de seus dois bancos.

Quem superou essa fase da crise, porém, descobriu que o pior estava por vir. O efeito quase imediato dos resgates foi a explosão da dívida e o temor dos mercados de que esses governos, considerados por anos como seguros, não tivessem como pagar suas contas. Em cinco anos, a crise bancária se transformou em crise financeira, que ganhou dimensão de crise econômica e logo virou uma crise social, que acabou resultando numa crise política.

O caso mais dramático foi o da Grécia, que chegou a ver sua expulsão da zona do euro começar a fazer parte dos cálculos de multinacionais e mesmo de países vizinhos. Mas rapidamente a crise se espalhou para Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. Em poucos meses, era a sobrevivência do euro e do maior projeto de integração da história recente que estava ameaçado.

O receituário usado para impedir uma convulsão foi a adoção de um plano de resgate financiado pelos países ricos, sob a condição de que esses países socorridos colocariam suas contas em dia. Hoje, para analistas e economistas, foi esse caminho que acabou afundando ainda mais o continente, ao ponto de até mesmo o FMI reconhecer que havia "exagerado" nas exigências de austeridade.

Pobreza. Essa austeridade significou o corte drástico de salários, pensões reduzidas, benefícios sociais revistos e o surgimento de filas de pobres em praças para receber alimentos. "É uma vergonha termos deixado a situação chegar a esse ponto", admitiu ao Estado a comissária de Assuntos Humanitários da UE, Kristalina Georgieva, que ocupa um cargo ministerial.

Estudos publicados na semana passada revelam ainda que, se a austeridade não for revista, parte da classe média na Europa desaparecerá nos próximos anos. Segundo a Oxfam, organização internacional que atua na busca de soluções para a pobreza, 25 milhões de europeus poderiam passar a ser classificados como pobres se a política de cortes não for revertida. Eles se somariam a 120 milhões que já são considerados pobres pela Eurostat. Na Europa, uma pessoa que ganha menos de 60% da média da renda do país é considerada pobre.

Para a Oxfam, "seriam necessários até 25 anos para recuperar o nível de vida de 2008". "Só esse dado já deveria colocar em questão o que está sendo feito", disse Teresa Cavero, pesquisadora da Oxfam. "É uma barbaridade que 145 milhões de pobres existam na Europa no século 21", disse, lembrando que o receituário adotado na América Latina nos anos 80 e 90 deveria servir de lição para a Europa de que a crise não se soluciona com austeridade.

Os estudos também apontam para uma desigualdade cada vez maior na Europa. Hoje, 10% da população detém 24% do PIB do continente. Enquanto o número de desempregados aumenta na Espanha, o patrimônio dos mais ricos cresceu 5,4%.

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