Europa precisa de 500 bilhões este ano

Se os cálculos incluírem, além dos governos centrais, províncias e municípios, a necessidade de financiamento pode chegar a US$ 1,6 trilhão

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Nos escritórios do Ministério das Finanças da Espanha, dezenas de economistas e analistas deixaram de trabalhar em projetos de geração de empregos e de incentivos a setores industriais para se dedicar a um só assunto: a dívida pública.

Diante da constatação de que a herança da crise acabou sendo um rombo sem precedentes na história recente da Europa, a prioridade imediata em todo o continente passou a ser a busca de solução para a dívida. Novos impostos e cortes draconianos de gastos se proliferam. Já a recuperação da economia e a volta dos empregos terão de esperar.

Os números em relação à dívida europeia variam de acordo com a fonte. Em Bruxelas, a indicação é que os governos dos 27 países terão de encontrar 500 bilhões apenas em 2010 para financiar suas dívidas. Já o Goldman Sachs estima que o problema é bem maior e chegaria a US$ 1,6 trilhão. Isso porque o número da União Europeia não contabiliza as dívidas de municípios e províncias, que também vivem situações críticas.

Resgate. Além da falta de crédito, outro problema que enfrentam os governos é a necessidade de desembolsar bilhões para salvar bancos e, agora, outra fortuna para pagar o seguro-desemprego de milhões de pessoas. Para completar, a crise causou quedas na arrecadação de impostos.

Para a UE, 16 dos 27 países-membros estão fora da lei. Ou seja, contam hoje com um déficit fiscal acima de 3% do PIB. Pelas regras do bloco, três anos consecutivos de um buraco acima do limite seria motivo para a expulsão da zona do euro.

Angela Merkel, chanceler alemã, afirmou nesta semana que a garantia da estabilidade monetária era o "objetivo mais importante da UE".

Se em 2009 a meta de todos os governos era sair da recessão e voltar a crescer e gerar postos de trabalho, em 2010 ficou claro para muitos que o déficit será a prioridade. O Reino Unido deve chegar a um déficit de 12%, ante 12,7% na Grécia. Na Espanha, já estaria na casa dos 11,4%.

Todos os governos já prometeram arrumar a casa. Mas a UE alerta que muitos estão sendo otimistas demais, principalmente com relação ao crescimento. Para Bruxelas, governos como o da Alemanha, França, Espanha e Itália estariam depositando uma confiança exagerada na retomada do crescimento como forma de lidar com seus déficits.

Em toda a Europa, a realidade é que governos adotaram medidas para elevar a arrecadação, que despencou com a queda na produção industrial e no consumo. Agora todos usam dos mais diversos argumentos para justificar a criação de várias taxas. Na Finlândia, o governo adotou uma nova taxa sobre refrigerantes e balas, supostamente para ajudar na dieta das crianças.

Na Irlanda do Norte, a forma encontrada foi multiplicar em dez vezes alguns impostos. Uma das novas taxas é a do registro de cachorros. Em média, o imposto europeu sobre produtos na hora de sua venda passou de 19,5% em 2008 para 19,8% em 2009. A taxa média deve chegar a 20% no segundo semestre.

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