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Gilles Lapouge
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Europa que ri, Brasil que chora

Há alguns anos nos habituamos a ter pena da "pobre Europa", com todos os seus motores engripados. E sempre oferecíamos como exemplo o Brasil, que liderava a corrida, registrando altos crescimentos, ano após ano. A Europa estava imóvel, ou recuava, ao passo que o Brasil seguia seu caminho e havia encontrado enfim o seu "famoso futuro" que Stefan Zweig, desde 1940, lhe havia prometido.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2015 | 02h02

Hoje perguntamos se não é caso de atualizar o software. Tudo se passa como se uma mudança de orientação estivesse em curso. Brasil e Europa dão a impressão de que mudaram seus papéis: a "lata velha" europeia se enfurece e acelera, enquanto o motor do Brasil engasga e seu acelerador quebra.

Os europeus mal acreditam nessa fadiga brasileira. Estavam tão habituados a ver o país de Lula crescer em espiral, lançar-se no zênite em companhia da China e se recusam a crer que a era Dilma não é a era Lula.

No jornal Figaro, um economista de renome, Nicolas Baverez, definiu a situação como "o crash do Brasil". E apresenta uma série de cifras e dados estatísticos que os brasileiros conhecem bem, infelizmente, mas que a Europa recusa-se a levar a sério. Ele evoca o escândalo e o desastre da Petrobrás, consequência, símbolo e acelerador do "mal brasileiro".

"Dilma não cessou de negar a crise, cedendo a uma deriva demagógica e nacionalista, buscando 'bodes expiatórios nos predadores internos e inimigos do estrangeiro'. O restabelecimento das finanças públicas e da política de oferta indispensável para a recuperação vão no sentido contrário da campanha de Dilma e validam o programa de seu opositor Aécio Neves."

Ele conclui seu artigo com um conselho: "É vital que o Brasil, com base nos seus trunfos formidáveis, coloque fim à deriva autoritária, nacionalista e populista, para escolher o campo do Estado de Direito e da reforma econômica".

Despertar. Como num jogo de equilíbrio, à medida que o Brasil afunda, a Europa desperta. Não é um despertar de sobressalto, estilo americano. Mas, depois de sete anos de vacas magras e cada vez mais magras, o mínimo progresso é um milagre.

Em novembro, Bruxelas previa para 2015 um crescimento de 1,5% na União Europeia e de 1,1% na zona do euro. Hoje, eis as novas previsões: 1,7% para a União Europeia e 1,3% para a zona do euro. Em 2016 essas porcentagens aumentarão para 1,9% e 2,1%. Claro que são saltos muito pequenos, mas, depois de sete anos de aflição, o efeito é de um salto de atleta.

A causa dessa melhora é conhecida: o esforço de todos os países da zona do euro. E a ele se adicionam dois eventos fortuitos: o recuo da moeda comum, o euro, que reanimou as exportações, e a queda dos preços do petróleo, que desafoga as contas das nações e das famílias.

É preciso que o comboio europeu não tropece numa grande pedra, por exemplo, na crise grega, já que Atenas decidiu atacar de frente Bruxelas, Berlim e alguns outros alvos, com o objetivo de por fim à "mania de austeridade" imposta por Angela Merkel aos países do sul da Europa.

Mas, se Bruxelas, como os gregos, os alemães e todos os outros, administrar prudentemente a cólera grega, ela poderá ter um efeito positivo sobre toda a Europa. Se Atenas, estimulada pelo desespero, conseguir soltar as amarras colocadas por Merkel e por Bruxelas no crescimento, o "acesso de cólera" dos gregos não terá sido inútil: países que fraquejam há anos sob o peso da "austeridade" poderão recobrar o gosto pela vida, o crescimento, e comunicar seu bom humor para toda a zona, a países como a Grécia, em primeiro lugar, mas também Itália, Portugal, Espanha. E mesmo a França. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

CORRESPONDENTE EM PARIS

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