Franciele Barbosa
Franciele Barbosa

Europeus desperdiçam mais comida que brasileiros, mostra relatório global

Documento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente contraria fala de Paulo Guedes; índice de desperdício no País, no entanto, ainda é alto

Amanda Calazans, especial para o Estadão

05 de julho de 2021 | 16h57

A Europa desperdiça um volume anual de comida per capita maior do que o Brasil, segundo o Índice de Desperdício de Alimentos 2021, documento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) com estudos de 54 países sobre o tema. Os dados, divulgados em março, contrastam com recente fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, em evento da Associação Brasileira de Supermercados.

Na ocasião, ele criticou os “excessos” nas refeições dos brasileiros. “Quando você vê um prato da classe média europeia, que já enfrentou duas guerras mundiais, são pratos relativamente pequenos. E os nossos aqui nós fazemos almoços em que muitas vezes há uma sobra enorme. Até o final da refeição da classe média alta há excessos”, disse o ministro. 

“O problema de desperdício de alimentos é grande mesmo em países que enfrentaram as duas guerras”, afirmou o pesquisador de Alimentos e Territórios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Gustavo Porpino, um dos revisores do índice. Para ficar nos exemplos de Guedes, o alemão descarta 75 kg de comida por ano, o francês, 85 kg, e o britânico 77 kg. Os menores números são da Rússia, da Eslovênia e da Áustria: 33, 34 e 39 kg. O brasileiro, por sua vez, desperdiça 60 kg anualmente. Esse valor, no entanto, começou em 41,6 kg.

Isso acontece porque o documento do Pnuma reuniu diferentes estudos, classificando-os com alta, média ou baixa confiabilidade. No Brasil, a pesquisa selecionada, da qual Porpino participou, foi feita pela Embrapa e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e disponibilizou um diário alimentar para 686 famílias registrarem suas sobras em texto e foto. Mas especialistas consideram que voluntários podem subestimar as perdas de alimentos com o método, por isso, o valor foi ajustado no relatório global.

A maneira mais eficaz de avaliar o desperdício é pela análise de lixo domiciliar, chamada de gravimetria de resíduos. A técnica é mais utilizada na Europa porque os países são menores e têm coleta seletiva. Aqui, além das dificuldades geográficas e de descarte de resíduos, há especificidades da cultura. Em uma pesquisa de campo para seu doutorado com, 50 famílias de baixa renda de São Paulo, Brasília e Ithaca (EUA), Porpino observou que os restos de alimentos podem ir para o cachorro, para as galinhas ou para o adubo, e isso a gravimetria não mostra.

Desperdício não tem classe

Países emergentes têm desperdiçado no nível de países ricos. De acordo com Porpino, há algumas hipóteses para isso. A família pode não ter os meios necessários para conservar os alimentos e é possível também que, sem ajuda em casa nem tempo, a pessoa que cozinha prepare uma quantidade maior de comida, o que pode terminar estragando na geladeira. Além disso, trabalhadores assalariados fazem uma compra única mensal. “Quando as famílias podem fazer compras menores e mais planejadas, há menor desperdício”, explica ele.

Mas o desperdício não se restringe à mesa. O pesquisador destaca os problemas que ocorrem no campo brasileiro, como pragas e uso de embalagens inadequadas, que podem acelerar o processo de apodrecimento. Pode ocorrer ainda o desequilíbrio entre oferta e demanda, como a escolha estética de supermercados não comprarem determinados alimentos, o que levaria o produtor a perder colheitas.

Os problemas de produção e oferta também atingem países ricos, e se somam a eles as influências do clima no Hemisfério Norte. Mas, de acordo com Porpino, o desperdício na etapa de consumo é global e a diferença acaba ficando mesmo sobre o que se descarta. Na pesquisa da Embrapa e FGV, observou-se que famílias das classes A e B desperdiçam mais frutas e hortaliças, resultado que reflete o baixo consumo de alimentos saudáveis entre os mais pobres.

Para explicar o problema no Brasil, o pesquisador cita a cultura da fartura, segundo ele, herdada da colonização portuguesa e impulsionada pelo bandwagon effect, fenômeno em que a classe média baixa buscaria reproduzir hábitos de consumo da classe alta, inclusive na alimentação.

Saídas coletivas

Mas a solução não é só individual. “A gente precisa tanto de iniciativas por parte da sociedade organizada, sobretudo das grandes organizações que têm uma responsabilidade maior, quanto do apoio de políticas públicas que ajudem a disciplinar e incentivar essas ações de mitigação de perdas”, afirma o consultor legislativo Marcus Peixoto, que atua na área de agricultura do Senado Federal.

Apesar de não haver linhas de créditos específicas para o combate ao desperdício de alimentos, Peixoto destaca as políticas de crédito rural que permitem que o produtor financie insumos e equipamentos e contrate assistência técnica para evitar as perdas no campo, como consta no Plano Safra 2021/2022, que pretende destinar R$ 251,22 bilhões em financiamentos.

O pesquisador da Embrapa fala em políticas de Estado “que permaneçam independentemente de governo de viés X ou Y”, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Vinculado ao Ministério da Educação, o PNAE contribui para a redução do desperdício no ambiente familiar pelo trabalho educacional que faz com crianças. Enquanto o PAA, do Ministério da Cidadania, fortalece circuitos curtos de produção e consumo a partir da compra de alimentos da agricultura familiar.

Além disso, Porpino sugere a ampliação da Rede Brasileira de Banco de Alimentos, criada em 2020 pelo governo federal e mantida pelo Ministério da Cidadania, que hoje têm cerca de 200 iniciativas de combate ao desperdício e à insegurança alimentar. “Não estou me referindo a alimentos vencidos ou sobras, mas frutas e hortaliças ainda boas para consumo mas que terminam se estragando em feiras e supermercados”, explica.

Há ainda modelos de negócio que conectam o consumidor ao produtor rural ou a varejos com produtos próximos do vencimento, como a Restin Brasil. Há oito meses, a startup liga empresas com alimentos excedentes a restaurantes ou clientes finais. Para o CEO e cofundador, Luciano Almeida, a ação individual tem importância. “Cozinhar o restinho de comida que você tem na sua geladeira já contribui para a redução do desperdício de alimento. Você não vai acabar com ele, mas vai ser o começo de uma mudança de conscientização.”

Ser criativo com as sobras das refeições é uma prática estimulada pelos especialistas. Para incentivar, a Restin Brasil faz no Instagram lives em que o convidado abre a geladeira e, sob a orientação de Almeida, prepara um prato com os restos de alimentos que encontrar. Com purê de banana-da-terra e costelinha de porco na panela de pressão, por exemplo, fizeram nhoque de banana-da-terra com ragu de costelinha em uma transmissão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.