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Europeus têm rede de proteção contra crise

Mesmo com desemprego, exemplos mostram que sistema atenua tombo

Andrei Netto e Jamil Chade, PARIS e GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

A recusa da Europa em redobrar esforços em programas de resgate da economia, como defende a administração de Barack Obama nos Estados Unidos, se deve à confiança dos governos da União Europeia no capitalismo de bem-estar social, que age de forma automática em tempos de crise. Exemplos concretos demonstram que, embora a turbulência global tenha efeitos duros na atividade econômica, a qualidade de vida da maioria dos desempregados pela crise foi preservada.O francês Patrick Barbe sintetiza bem o momento econômico da Europa. Em 2006, um ano antes da eclosão da crise do subprime - os créditos imobiliários de alto risco negociados nos Estados Unidos -, o pequeno empresário, hoje com 51 anos, aventurou-se na criação de uma empreiteira. A intenção era explorar o potencial imobiliário de pequenos apartamentos para famílias sem filhos, vendidos por cerca de 60 mil. De acordo com suas estimativas, o negócio deveria movimentar 5 milhões.Depois de investir 600 mil no negócio e empregar sete funcionários, Barbe viu a bolha imobiliária estourar. O crédito secou e seus planos começaram a afundar. "No Natal passado, eu não tinha mais clientes", lamenta. Em 25 de fevereiro, menos de três anos depois de criá-la, sua empresa foi liquidada pela Justiça. Os sete funcionários foram demitidos. Ele próprio se enquadrará nos programas de auxílio social da França, se desejar. "De um dia para o outro, o Estado passou a arcar com os custos do desemprego. Eu preferia ver meus funcionários recebendo salários da minha empresa", diz Barbe. "Esta crise está destruindo tudo. Ela nos castiga duplamente, porque a iniciativa privada perde força, e o Estado assume a conta."Segundo cálculos da Comissão Europeia, os pacotes de estímulo após a falência do banco Lehman Brothers, em setembro, somam 200 milhões. Mas a este valor, argumentam líderes políticos como o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, precisam ser adicionados os gastos dos Estados com programas sociais. Na prática, entre seguros-desemprego, auxílios-moradia - para pagamento de aluguel -, custeio integral dos transportes, programas de renda mínima, bolsas para estímulo à natalidade, saúde e educação gratuitas, o valor investido em meio à atual crise salta para algo entre 3,3% e 4% do Produto Interno Bruto (PIB) da região, de 400 milhões a 485 milhões. É essa injeção de recursos na sociedade que garante qualidade de vida em tempos difíceis. Raphael Espinoza, PhD em Economia pela Universidade de Oxford e economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), vê impacto positivo nos chamados "estabilizadores automáticos" - a designação técnica dos programas sociais. Segundo ele, os planos de auxílio amortizam entre 35% e 40% do impacto da crise na renda das famílias - renda, diga-se, já elevada. Para o todo da economia de um país como a França, segundo a Comissão Europeia, os estabilizadores atenuam 10% da queda do consumo no primeiro ano e 20% no segundo.O efeito sobre o mercado de trabalho também é significativo, segundo Espinoza. "A cada 1% de PIB perdido pela economia do país, os estabilizadores salvam o equivalente a 20 mil empregos", explica, ressalvando: "Mas as ferramentas que atenuam a crise também reduzem a capacidade de crescimento em épocas de ciclos econômicos positivos."EFEITO COLATERALOutro efeito colateral dessas políticas é o desequilíbrio nas contas públicas. Na França, por exemplo, a perspectiva para 2009 aponta déficit de 5,6% do PIB. Mesmo na Alemanha, onde a austeridade é palavra de ordem, o buraco aberto deve chegar a 4%. Isso ocorre porque na Europa o orçamento age como regulador da vida econômica. Quando a atividade se desacelera, o volume de recursos arrecadados com impostos - indexados ao lucro e à renda - cai.Na prática, a iniciativa privada é poupada, passa a pagar menos taxas e preserva parte da saúde financeira para a retomada econômica. Em contrapartida, o Estado paga a fatura. Os governos abrem mão do equilíbrio fiscal, deixando o déficit público crescer para injetar mais recursos diretamente nas contas bancárias das famílias.Poucos desempregados do mundo têm o privilégio de contar com um sistema tão generoso quanto o da Suíça. É o que Antonio de Souza, 34 anos, filho de portugueses, acabou de descobrir. Há duas semanas, ele perdeu o emprego numa pequena fábrica de peças para a indústria de relógios. Mas já foi avisado de que receberá 80% do seu salário pelos próximos 11 meses. "A renda não cairá tanto. O problema é mais emocional, por ter sido rejeitado."Caso nenhuma oportunidade de trabalho surja nos próximos meses, Souza cairá no sistema de ajuda social. Terá o aluguel coberto pelo governo, além de atendimento em saúde. Para completar, receberá US$ 1 mil por mês em dinheiro e uma bolsa para alimentação.Segundo o vice-secretário-geral do Departamento de Empregos de Genebra, Bernard Favre, a ideia do sistema suíço é evitar que uma demissão contamine a economia. "Se alguém perde sua renda, vai comprar menos, o que pode gerar mais desemprego." Para Clemente de Lucia, economista do banco BNP Paribas, o desempregado europeu está em melhor condição do que nos Estados Unidos porque as políticas de bem-estar social amortecem o impacto em tempos de turbulência.

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