Evento sem público é o retrato da onda protecionista global

Ausência de ministros e desinteresse das delegações mostraram a irrelevância da OMC neste momento de crise

GENEBRA, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h06

Nos corredores da conferência da OMC, assessores buscavam desesperados por jornalistas para que não passassem vergonha. Uma coletiva de imprensa começava com um primeiro-ministro e o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, e a sala com 300 cadeiras tinha apenas dois jornalistas interessados.

Às moscas, a OMC viveu nesta semana provavelmente o ponto mais baixo em sua história. Engolida pela recessão e pela onda protecionista, a entidade passou a ser marginalizada das decisões de governos.

O espelho disso foi a reunião desta semana, um total contraste com conferências realizadas há apenas poucos anos. Desta vez, apenas um terço dos países se deu ao trabalho de enviar ministros ao evento, que há uma década era um dos principais centros de decisão do mundo.

Salas de conferências passaram dias totalmente vazias, com delegações fazendo discursos para os próprios microfones. Os poucos ministros que foram até Genebra se recusaram a ficar até o final do evento, que sequer teve uma declaração final. O único texto lido ao final foi um resumo dos discursos.

Sem protestos. Outro sinal da irrelevância da OMC estava nas ruas. Em 1999, a cidade de Seattle, nos Estados Unidos, viu uma verdadeira batalha nas ruas comandada por ativistas que conseguiram fazer cancelar o evento. Em 2005, em Hong Kong, a conferência ministerial da OMC obrigou as autoridades locais a fechar o centro de uma das cidades mais frenéticas do mundo.

Neste fim de semana, uma solitária barraca era colocada do outro lado da rua do centro de convenções onde ocorria o evento, com poucos a enfrentar o frio suíço para protestar.

O interesse da imprensa mundial também demonstra a crise. Menos de 10% dos jornalistas que foram a Hong Kong em 2005 repetiram a viagem a Genebra. A sala de imprensa, esvaziada, era usada quase como sala de confraternização entre jornalistas que aguardavam o final do evento.

O público só cresceu quando foi anunciado a entrada da Rússia na OMC. Mesmo assim, o Kremlin deu uma mão: fretou um avião e pagou pela viagem de 40 jornalistas para cobrir o grande evento.

Lamy, já admitindo que não tem mais como esconder o óbvio, deixava claro que a comunidade internacional precisava tomar uma decisão sobre o que queria da OMC. Mas, em mais um sinal da falta de projeto, fez o que qualquer político faria quando não sabe como dar uma solução a um problema: criou um comitê para estudar uma reforma na entidade. / J.C.

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