Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Eventos adotam protocolos, mas retomada é lenta

Espaços só podem usar 40% da capacidade; Ampro diz que maioria das empresas cortou 50% dos funcionários

Lílian Cunha, Especial para o Estadão

10 de agosto de 2020 | 05h00

“Dava dó de ver esses corredores vazios”, diz o diretor-geral do World Trade Center São Paulo, Fernando Guinato, sobre um dos maiores centros de convenções da capital paulista. Antes da pandemia de coronavírus, o WTC recebia de 80 a 100 eventos por mês. Nomes como Bill Clinton (ex-presidente dos EUA) e Arnold Schwarzenegger (ator e ex-governador da Califórnia) já estiveram nas salas e auditórios do local para palestras ou premiações. Mas, de março até o fim de julho, apenas os estúdios foram usados para eventos realizados pela internet. 

Em 29 de julho, o WTC voltou à ativa. Mas não como antes. Na entrada, única para todos os presentes, cada um usando sua máscara, a temperatura de cada pessoa era medida. No auditório para 600 pessoas, os presentes se sentaram mantendo distância de duas poltronas. “Foi uma premiação para arquitetos e decoradores que estava marcada para o fim de março. Foram convidadas 200 pessoas. Mas 120 vieram”, conta Guinato. 

Na semana passada, outra convenção presencial aconteceu no WTC. A empresa Quod, de gerenciamento de cadastro positivo, convidou 40 pessoas para conhecer o novo presidente, Cassius Schymura, contratado em abril. Mais uma vez, todos usaram máscaras, mediram temperatura e permaneceram numa sala de 450 m², com distanciamento social de mais de dois metros. Muitas levaram de casa o próprio frasco de álcool em gel. Não houve a tradicional pausa para o café. O almoço foi a la carte, com mesas bem separadas e garçons usando máscaras e escudos faciais. 

“Notamos que, no início, as pessoas estavam muito retraídas, falando pouco”, conta Gustavo Oliveira, diretor de vendas técnicas da Quod. “Mas depois elas foram ficando mais descontraídas por poderem encontrar colegas que não viam há meses”, conta o executivo. Os 150 funcionários da Quod trabalham de casa desde março.

O prejuízo das empresas que dependem de eventos é imenso. “Esse setor engloba não só os locais onde as conferências e seminários são feitos. Mas as empresas de alimentação, de audiovisual, hotéis que hospedam os participantes de fora”, diz o presidente da Associação de Marketing Promocional (Ampro), Alexis Pagliarini. Toda essa cadeia amargou, segundo ele, perdas de R$ 50 bilhões por mês na quarentena.

Quando o governo estadual permitiu que eventos presenciais fossem novamente realizados, as 260 empresas associadas à Ampro tiveram um pequeno alívio. As novas regras impostas pelas autoridades (com protocolos de distanciamento e higiene e limitação de 40% do público anterior) não vão, segundo ele, aumentar os custos do setor. 

Mesmo com rentabilidade menor, a medida foi bem recebida. “É alguma coisa para quem estava sem faturar nada.” E a estrutura das empresas também encolheu: “A maioria demitiu mais de 50% dos empregados.”

Futuro

Mas a questão que fica é: esse novo modelo de evento vai vingar? “As pessoas ainda estão muito receosas”, diz Guinato, do WTC. Por isso, Pagliarini afirma que o novo formato de evento talvez seja o híbrido, com algumas pessoas fisicamente presentes e outras participando virtualmente. 

Para o infectologista Pedro Mendes Lages, do Hospital Samaritano e da Beneficência Portuguesa de São Paulo, a arquitetura dos centros de eventos é o principal fator de risco. “São lugares fechados, acarpetados, sem janelas e com ar-condicionado. Com o número de novos casos que temos agora, ainda é muito arriscado realizar eventos assim”, diz ele. 

O problema, segundo ele, não é a contaminação cruzada (quando uma pessoa se infecta por tocar em algo contaminado). “Num evento longo, as pessoas vão tocar nas máscaras, ajustá-las. Se houver alguém contaminado no ambiente, o vírus vai se espalhar por gotículas, com ajuda do ar-condicionado”. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.