Werther Santana/Estadão
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coluna

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‘Evitamos empresas que não se preocupam com o meio ambiente’, diz Mark Mobius

Um dos maiores especialistas em mercados emergentes, Mobius acredita que Brasil terá recuperação rápida no ano que vem

Entrevista com

Mark Mobius, fundador do Mobius Capital Partners

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2020 | 19h03

Considerado o guru dos mercado emergentes, o americano Mark Mobius afirma que não aportaria em uma empresa que destruísse a Amazônia. “Meio ambiente é muito importante e está se tornando ainda mais importante (para investidores)”, disse em entrevista ao Estadão.

Mobius se tornou globalmente conhecido por sua atuação na empresa de investimentos Franklin Templeton, na qual ficou por mais de 30 anos. Hoje, à frente do Mobius Capital Partners - que tem fundos de investimentos destinados a empresas de médio porte de países emergente -, diz estar otimista com a recuperação do mercado brasileiro e que tem apostado em companhias dos setores de saúde e educação. 

Apoiador de Donald Trump, Mobius, que é contra medidas rígidas de distanciamento social, diz que pouca coisa deve mudar na economia dos Estados Unidos se o democrata Joe Biden vencer as eleições. “Invisto no mercado americano e não mudaria isso. Muitas coisas que Trump tem feito são difíceis de serem revertidas”, diz ele, que participará, na quarta-feira, 22, de uma conferência online promovida pelo banco BTG Pactual. A seguir, a íntegra da entrevista.

Em uma entrevista recente, o senhor disse estar otimista com o Brasil, porque a economia está reabrindo. Há, porém, economistas que dizem que a crise do coronavírus pode ser mais longa aqui justamente por não ter havido um 'lockdown' completo. Como vê essa possibilidade?

Há um pânico global e irracional em relação ao coronavírus. Acredito que as pessoas não estão olhando aos números corretos. Deveríamos olhar para o número de mortes totais comparadas com as mortes do ano passado e do ano anterior. Se você colocar esses números juntos, vê que a situação não é tão ruim quanto as pessoas acham. O número de pessoas infectadas pode ser grande, mas o de mortes não é. O Brasil é um país grande e mais variado que os Estados Unidos, no sentido de que vocês têm muitas áreas que são diferentes umas das outras. Então vocês têm graus diferentes de infecção. Por isso, acho que o Brasil se sairá bem disso. Pode haver pânico, mas a realidade é que a vida continua e, se você olhar para os preços da Bolsa, vê que o mercado está indo muito bem.

No Brasil, morreram mais de 80 mil pessoas. Esse não é um motivo para pânico?

Infelizmente, muitos hospitais no Brasil e no mundo, quando alguém morre, eles dizem que foi por causa do coronavírus. A realidade é que essas pessoas podem ter morrido de outras coisas. Se você olhar para a principal causa de morte no Brasil são doenças do coração. Às vezes, alguém tem um problema de coração e aí o coronavírus piora a situação dessa pessoa. É preciso ser muito cuidadoso com os números. 

Como o senhor vê o impacto dessa crise sanitária na economia do Brasil?

Globalmente, acho que estamos em uma recuperação em formato de V. No Brasil, acho que vai haver uma recuperação muito rápida no ano que vem. Provavelmente, no fim deste ano, você começará a ver essa recuperação. Temos de lembrar que há empresas no Brasil que agilizaram a transição do offline para o online. Isso vai ter um grande impacto em muitas companhias, que, em alguns casos, estão indo melhor do que antes. Se você visitar as grandes cidades, vê que as pessoas estão gradualmente voltando ao trabalho. 

A Bolsa brasileira também está se recuperando. Acredita que há espaço para continuar subindo? Ela não está descolada da realidade econômica?

É verdade que a Bolsa brasileira está com uma recuperação incrível. O Ibovespa (principal índice da Bolsa) já subiu uns 60% desde que atingiu o ponto mais baixo, o que é incrível. Nos EUA, foi 50%. O Brasil está indo melhor do que os EUA nessa recuperação, mas, claro, o Brasil, caiu mais do que os EUA. Acho que, sim, estamos recuperando e logo estaremos onde estávamos no começo deste ano.

É hora para comprar na Bolsa brasileira ou esse momento já passou?

Teria sido melhor comprar em abril ou maio, mas você tem de se lembrar que o mercado agora está abaixo do que estava em janeiro. Então acredito que ainda haja muita oportunidade no Brasil.

Que tipos de empresa o senhor está apostando no Brasil?

Agora, gostamos de empresas relacionadas aos setores de saúde, como as que fazem diagnósticos, e de educação, que podem ir bem online. Gostamos também do varejo, particularmente companhias que combinam vendas online com offline. 

No fim de 2018, em entrevista ao 'Estadão', o senhor disse estar entusiasmado com o Brasil e com as propostas de reformas de Jair Bolsonaro, então recém-eleito presidente. Até agora, só a reforma da Previdência passou. Continua entusiasmado?

O problema é que, infelizmente, por causa da covid-19, muita coisa teve de ser postergada, mas acho que a intenção do governo é muito boa. Naquela época, eu disse que não era para achar que tudo seria realizado, porque isso é muito difícil. Mas, mesmo se ele conseguir fazer metade ou um terço do que pretendia fazer, será uma conquista grande.

O meio ambiente é hoje um dos principais temas de debate no Brasil. O sr. o considera um ponto relevante quando decide seus investimentos?

Muito. Nosso fundo se dedica a melhorar governança corporativa, o ESG (sigla em inglês para indicadores ambientais, sociais e de governança). Trabalhamos com todas as empresas em que investimos para garantir que tenhamos a governança correta. Se não tiver boa governança, não se pode fazer nada em relação ao meio ambiente. Por isso, enfatizamos para as pessoas nas empresas com as quais lidamos que é preciso melhorar a governança e, então, o meio ambiente e a responsabilidade social. Definitivamente, meio ambiente é muito importante e está se tornando ainda mais importante.

O sr. investiria em uma empresa que destrói a Amazônia?

Não. Evitamos esse tipo de empresa.

E se um país, como o Brasil, por exemplo, não preserva o ambiente. O sr. investe?

O que fazemos é olhar para as empresas. Muitas vezes vemos que a empresa tem uma posição diferente da do País. Gostamos de empresas que, às vezes, vão contra o que os governo estão fazendo, que estão fazendo um trabalho melhor do que o governo. 

O sr. sempre apoiou Donald Trump. Ele tomou as medidas adequadas para lidar com o coronavírus e com a crise econômica decorrente da pandemia?

Eu diria que ele está em uma situação tão complicada. Ele recebe informações confusas. Você tem de se lembrar que nem os cientistas concordam em como lidar com essa crise. Acho que sua abordagem é boa porque, se as pessoas não voltarem ao trabalho, o custo econômico e humano será maior do que as pessoas imaginam. 

Muitos apontam que não existe essa dicotomia entre saúde e economia, que,enquanto as pessoas estiverem ficando doentes e morrendo, a economia não vai se recuperar. Para o senhor, é preciso escolher entre uma ou outra coisa?

Estou na Alemanha, em Munique. Aqui, as pessoas estão saindo às ruas, comprando, indo a restaurantes. Mas, se elas vão a restaurantes, vão com máscara. Há medidas que ajudam a prevenir que a doença se espalhe. Acho que essa é uma política melhor. Você não pode exagerar e fazer com que a economia pare de funcionar, principalmente em países como o Brasil, onde 20% ou 30% da população vive um dia de cada vez, sem um emprego regular. 

O governo não deveria ajudar essas pessoas a ficarem em casa para, depois, poder reabrir a economia?

O que eu sugeriria seria permitir que as pessoas saiam às ruas, mas que elas usem máscaras e mantenham distância uma das outras, como aqui na Alemanha. Caso contrário, o custo econômico é muito grande, principalmente para os pobres.

Voltando ao assunto Donald Trump: ele pode perder a eleição. Como o sr. vê uma possível economia americana sob a administração de Joe Biden?

Qualquer presidente vai ter dificuldade para fazer grandes mudanças. Se Biden for eleito, o governo irá mais para um modelo social, haverá uma orientação maior socialista para a economia. Mas acho que não haverá grande mudança em comércio nem em gastos públicos. Trump teve grandes programas de gasto público, o que normalmente é algo que os democratas fazem.

O sr. mudará seus investimentos se Biden vencer?

Invisto no mercado americano e não mudaria isso. Muitas coisas que Trump tem feito são difíceis de serem revertidas. Por exemplo, ele fez várias desregulamentações, não será fácil mudar isso. Ele alterou bastante as Cortes, nomeou muitos juízes, que não serão trocados rapidamente. Acho que os EUA continuarão se saindo bem. 

Com esse cenário de crise global, os emergentes continuam sendo atraentes para o investidor?

Até mais do que eram. Muitos emergentes fizeram um bom trabalho para parar o contágio do coronavírus, como China, Índia e Coreia do Sul. Outra coisa é que, com taxas baixas de juros e com uma quantidade incrível de dinheiro sendo colocada nesses mercados pelos países desenvolvidos, pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional, eles terão boas oportunidades para melhorar a infraestrutura. 

Quais países emergentes o sr. está investindo agora?

O Brasil é o terceiro maior país no nosso portfólio. Os outros que temos investimentos são China, Índia, África do Sul, Turquia, Coreia do Sul, Taiwan. Esses são os principais.

Mas onde o sr. aumentaria os investimentos?

Estamos olhando algumas coisas no Brasil. Essa é uma possibilidade para nós, mas depende dos preços. Estamos encontrando mais oportunidades também em Taiwan.

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