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Evitar excessos é a melhor estratégia além das fronteiras

Para especialistas, brasileiros em contato com estrangeiros devem dominar bem a cultura local antes de se arriscarem nas atitudes

GUSTAVO COLTRI, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2014 | 02h06

Junho e julho, com a Copa do Mundo, deram aos brasileiros o gostinho de uma convivência mais cosmopolita, cheia de informalidade e festa no País. Na rotina de grandes empresas, as diferenças culturais podem ser uma grande fonte de novas soluções. Mas, se subestimadas, também podem ser uma barreira para o relacionamento dos funcionários.

Brasileiros com intenção de seguir carreira em contato com o exterior devem, segundo especialistas, ter profundo conhecimento linguístico e cultural da nação pretendida e, acima de tudo, respeito ao estilo de atuação em cada localidade.

"Antes de mais nada, é bom ter um nível de fluência elevado no idioma local. O ideal, se a pessoa for para a Alemanha, por exemplo, é falar alemão porque, se não souber o idioma, vai ficar de fora em algumas situações, desde as ligadas diretamente ao trabalho até as reuniões no café. Em qualquer lugar, sempre haverá pessoas que não dominarão o inglês", diz o diretor de operações da consultoria Robert Half no Brasil, Fernando Mantovani.

O peso do idioma local varia de país para país. "Tenho um amigo executivo que migrou para a Holanda há um tempo. Eu perguntei se ele havia aprendido holandês depois de um tempo que estava lá, e ele falou que preferia aprender como se portar, porque a maior parte das pessoas sabia falar inglês", diz o diretor da recrutadora Michael Page no Brasil, João Marco.

O aspecto crucial a se considerar para evitar excessos, segundo ele, é o conhecimento dos traços culturais de cada lugar - os brasileiros são conhecidos por serem emotivos e expansivos demais em algumas circunstâncias. Marco indica, inclusive, um aplicativo para smartphones com dicas de comportamento. O CultureGPS, em inglês, pode ser baixado na Apple Store gratuitamente.

"Quando chegar ao novo local de trabalho, o profissional tem de ser o mais observador possível. Alguma característica sempre predomina e pode dar uma orientação." Mantovani acrescenta a essa dica, um esforço pessoal de ter a humildade de ouvir mais do que falar na fase inicial de convivência, especialmente em nações mais reservadas.

China. Maiores parceiros comerciais do Brasil, os chineses não são fáceis de se conquistar, "A partir do ponto que a pessoa ganha confiança deles, a relação tende a ser perene, mas essa é uma construção realizada bem aos poucos", diz o gerente de soluções e projetos da unidade de gestão e talentos da GS&MD, Rodrigo Anunciato.

A presidente da Associação Profissional de Intérpretes de Conferência (Apic), Tereza Sayeg, diz que os orientais geralmente conversam mantendo uma certa distância e, em geral, se inclinam para cumprimentar. Nos primeiros encontros, trocar cartões de visita também costuma ser uma ação bem valorizada pelos asiáticos, na opinião da vice-presidente da entidade, Maria Eugênia Farré.

Gerente de pós-venda e homologações veiculares na fabricante de automóveis Chery, Maurício Buzetto, de 35 anos, convive diariamente com a cultura chinesa. "Eles acreditam muito na palavra. O que é falado tem de ser tirado do papel. Depois de uma reunião, se uma proposta é feita, eles esperam, mas aguardam resultados", diz. E ele pede especial cuidado com a pontualidade para os brasileiros. "Uma das primeiras frases que eles aprendem em português é: 'Você tem relógio?'."

A diretora associada de qualidade médica da farmacêutica Pfizer na América Latina, Ásia, África e Oriente Médio, Samantha Smirnovas, de 33 anos, já esteve duas vezes no Oriente para reuniões e notou, além de uma grande preocupação com o respeito, uma forte hierarquização nos ambientes corporativos.

Estados Unidos. Parte de uma organização com sede nos EUA, Samantha teve uma experiência mais profunda, no entanto, na América do Norte, onde passou um ano e meio. "O ambiente nos EUA é mais informal do que o europeu e o asiático, mas os profissionais não criam muita proximidade. No começo de uma reunião, por exemplo, sempre vão lhe perguntar uma questão pessoal, mas farão isso apenas por uma questão protocolar", diz. O aperto de mão costuma ser regra nos cumprimentos, menos calorosos do que os abraços e beijos praticados no Brasil.

Samantha passou por um programa de treinamento oferecido pela companhia para se preparar para o convício no exterior. Ela recebeu orientações até de tributação para que pudesse declarar corretamente seu imposto de renda. De acordo com Mantovani, conhecer muito bem a legislação de países como os EUA pode livrar os profissionais dos apuros, especialmente no que diz respeito aos possíveis casos de assédio moral e assédio sexual.

João Marco, da Michael Page, destaca o grande foco em performance dos executivos americanos. Samantha acrescenta a essa característica uma grande objetividade, pragmatismo e a adoção de prazos agressivos nos ambientes de trabalho.

Europa. Entre os países ocidentais, os europeus estabelecem relacionamentos mais comportados e, às vezes, até são considerados secos, se comparados com os brasileiros. Existem, contudo, diferenças entre os países.

De acordo com os especialistas, os alemães dão muito valor aos processos empresariais, são muito bem organizados e não medem palavras para fazer críticas. "A credibilidade da pessoa estará ligada a sua competência. Se entrar em uma discussão sem conhecimento de causa, vai perder muito respeito. E os alemães são mais ásperos no tratamento", diz Mantovani.

Já os vizinhos holandeses parecem mais amistosos. "Na essência, o holandês é muito liberal e aberto", diz o diretor de marketing dá área de cuidados pessoais da Philips, João Pedro Garcia de Souza, de 34 anos, que voltou em maio de uma temporada de um ano em Amsterdã.

A organização, segundo ele, dá muito espaço paras as unidades locais e aposta em um ambiente de trabalho mais informal. "Eles fazem até reuniões em pé, no café, mas que são muito produtivas. É um povo muito divertido, preocupado em ter um estilo de vida equilibrado: trabalhar quando se tem de trabalhar - e eles trabalham muito - para depois se divertir."

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