Evite ações de empresas com dívidas em dólar

Relação entre a moeda americana e a brasileira cria grupos de 'vencedores' e 'perdedores' na Bolsa de Valores

Fernanda Guimarães, Suzana Inhesta e André Magnabosco, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2013 | 02h09

A relação entre dólar e real costuma criar grupos de "vencedores" e "perdedores" na Bolsa. No rol das ações mais atrativas estão os papéis das grandes exportadoras, caso de empresas dos setores alimentício e de celulose. Companhias cujos custos estão associados ao dólar, por outro lado, devem ser evitadas, alertam analistas.

Para o BTG Pactual, a lista de ações mais atrativas neste momento elenca empresas como JBS, Marfrig e BRF, da indústria de alimentos, Fibria e Suzano, fabricantes de celulose, siderúrgicas e companhias do agronegócio.

Essas empresas, embora alavancadas e com dívidas em dólar, ganham com o impacto do dólar valorizado nas exportações quando calculadas em real. Já os papéis de Gol, M. Dias Branco e varejistas devem ser evitados devido à alta dos seus custos com a compra de insumos importados ou com preços balizados pelo dólar.

Apesar de a valorização do dólar aumentar a dívida das siderúrgicas - em especial a Usiminas, que possui fatia menor da receita em dólar -, o BTG prevê efeito positivo do câmbio para o setor, uma vez que tornará menos atrativa a entrada de aço importado no País. De acordo com o banco de investimentos, esse panorama poderá abrir um espaço para que elas recomponham os preços, já bastante comprimidos.

"Dada a situação da economia brasileira e a ociosidade da indústria siderúrgica mundial, pensamos que pode ser difícil para as siderúrgicas locais aumentarem seus preços, e não assumimos um repasse total da depreciação do real para os preços", dizem analistas do BTG.

O presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Loureiro, é cético quanto a um ajuste de preços. Isso porque, no mercado internacional, eles estão "próximos do piso".Ele também destaca que a maior preocupação atual do setor não está relacionada à entrada direta do aço no País, mas à indireta por meio de produtos com aço contido como itens da linha branca, máquinas e veículos.

Outra empresa apontada como "vencedora" pelo BTG Pactual e citada pelo Bank of America (BofA) Merrill Lynch é a Embraer, que possui 100% da receita denominada em dólar, ante 70% dos custos atrelados à moeda americana. Situação parecida é atribuída à Suzano.

Ranking. O BofA também fez um ranking das mais atrativas nos mercados de agronegócio e consumo. Na análise, o banco de investimentos considerou o aumento do risco Brasil e da variação do câmbio no custo de capital e na duração do fluxo de caixa. Segundo analistas do BofA, as empresas mais bem posicionadas no primeiro critério são Ambev, Souza Cruz e JBS.

No caso do fluxo de caixa, as favoritas são Ambev, BRF e Souza Cruz. Minerva, nesse critério, é descartada e Marfrig é considerada, mas só após a concretização da venda da Seara Brasil.

A petroquímica Braskem também é incluída na lista de ações atrativas pela Itaú Corretora pelo mesmo descasamento entre receitas e custos atrelados ao dólar. Já a Petrobrás será pressionada negativamente. O câmbio é apontado pelo JPMorgan como uma das razões para reduzir o preço-alvo das ações da estatal e elevar o dos papéis da Braskem no fim de 2014.

O analista sênior da Moody's para empresas corporativas, Soummo Mukherjee, cita a Gol como empresa não atrativa nesse momento do câmbio. A aérea possui grande exposição de dívida em dólar somada a uma estrutura de custo (querosene de aviação) e aluguéis (leasing) de aeronaves atrelados à moeda americana. Net, Embratel e Organizações Globo, por outro lado, são investimentos atrativos, segundo Mukherjee.

A Petrobrás, que tem mais de 60% de sua dívida em dólar, não será tão beneficiada quanto outras exportadoras no âmbito operacional. Parte do ganho com a elevação da receita nas vendas externas de petróleo será consumida pelos custos mais altos provenientes da importação de combustíveis.

A estatal sofre com uma defasagem de 15,4% no preço da gasolina importada em relação ao produto vendido nacionalmente. Estudo elaborado pelo Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) mostra que a diferença é bastante superior à apurada no fim de abril (9,8%), antes, portanto, da alta do dólar. No caso do diesel, a defasagem oscilou de 6,5% para 16,4% no período. "A variação cambial praticamente anulou o efeito dos reajustes de gasolina e diesel aplicados neste ano", diz o diretor do CBIE, Adriano Pires.

Outra companhia que vive situação particular é a Vale. A empresa possui sua receita, quase na totalidade, atrelada ao dólar. Esse fato fez com que o JPMorgan elevasse em 1% suas projeções para o Ebitda da mineradora em 2013, a US$ 20,1 bilhões, e 3% para 2014, a US$ 20 bilhões.

Os efeitos positivos do dólar valorizado em relação ao real, contudo, não deverão ser suficientes para compensar o cenário adverso enfrentado pela Vale, com a China mostrando sinais de desaquecimento e trazendo para baixo as expectativas futuras do preço do minério de ferro.

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