Evo Morales chega nesta quarta ao País sem impor condições

Derrotado em sua última queda-de-braço com o governo brasileiro, o presidente da Bolívia, Evo Morales, terá nesta quarta-feira, 14, uma chance para adotar uma agenda positiva na negociação das pendências com o Brasil, durante sua primeira visita oficial a Brasília. Nos últimos dois dias, Evo tentou converter o encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em objeto de barganha, ao impor como condição o aumento do preço do gás natural fornecido ao Brasil.Como ocorreu nas tentativas anteriores, a pressão de Evo por uma decisão política do governo Lula sobre o preço do gás natural não surtiu efeito. Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, instruiu o embaixador brasileiro em La Paz, Frederico Araújo, a reiterar ao governo boliviano que o Brasil não aceitaria condições e a negociação sobre gás natural continuaria na esfera técnica da Petrobras.A mensagem foi clara: se Evo mantivesse suas condições, melhor seria cancelar a visita. Sua vinda ao Brasil acabou confirmada às 12 horas de terça (14 horas de Brasília). "Paciência tem limite", disse uma fonte do gabinete de Amorim, que ressaltou a falta de habilidade diplomática do governo boliviano.A estratégia de La Paz quase pôs a perder o pacote de cooperação preparado para selar o evento. Por muito pouco, a atitude deixou de inflamar a animosidade criada entre os dois países desde que Evo Morales nacionalizou o petróleo e o gás natural, em maio de 2006.O presidente da Bolívia desembarcará nesta manhã para uma visita de poucas horas. Terá um encontro reservado com Lula às 11 horas, no Palácio do Planalto, seguido de uma reunião de trabalho com ministros dos dois governos. Lula oferecerá um almoço a Evo no Itamaraty e juntos assinarão oito acordos de cooperação - sobre controle da febre aftosa, aproveitamento do Rio Madeira, fluxos imigratórios e outros nas áreas agrícola e de defesa.Antes de retornar a La Paz, Evo terá um encontro, no Congresso, com os presidentes da Câmara, Arlindo Chinaglia, e do Senado, Renan Calheiros. A visita deverá ser retribuída, até o fim deste ano, com uma viagem oficial do presidente brasileiro a La Paz.Apesar de resistir à discussão sobre o preço do gás natural, Lula deverá tratar "de uma maneira mais ampla" da produção e exportação desse insumo com Evo Morales, como informou uma fonte do governo. Mais pobre entre os países da região e com uma fronteira de 3 mil quilômetros com o Brasil, a Bolívia terá a promessa do Planalto de que antigas propostas sairão da gaveta.Entre essas propostas estão os investimentos adicionais da Petrobras na produção de gás, o financiamento brasileiro a um projeto de pólo gasoquímico na fronteira, a ampliação do gasoduto Brasil-Bolívia e crédito para a exportação de máquinas agrícolas brasileiras ao país vizinho. Nesta semana, o governo brasileiro incluiu no pacote a possível construção de uma hidrelétrica binacional no Rio Madeira, na fronteira entre Bolívia e Rondônia."Resolvendo a questão do gás, resolveremos todas as pendências bilaterais e engataremos uma agenda positiva com a Bolívia", afirmou a mesma fonte. "Embora o imbróglio sobre o preço do gás não esteja na agenda, os presidentes vão tratar do gás de forma mais ampla. Afinal, Evo Morales tem de voltar com alguma coisa do Brasil."O pacote, entretanto, não foi suficiente para "desarmar" a equipe de Evo. Embora acertada desde 18 de dezembro, durante a visita de seis ministros bolivianos ao Brasil, e confirmada em 6 de fevereiro, o governo boliviano ameaçou cancelar a vinda de Evo se Lula não aceitasse discutir o preço do gás.O chanceler boliviano, David Choquehuanca, adicionou pólvora ao fogo ao levantar outra condição para a visita de Evo ao Brasil - a suspensão dos projetos de construção das hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, no Rio Madeira, alegando alterações graves no curso do rio, que se forma na Bolívia. As usinas estão entre os projetos prioritários do Programa de Aceleração da Economia (PAC), anunciado por Lula.Pendências Gás: A Bolívia pressiona pelo aumento do gás fornecido ao Brasil, de US$ 4,3 por milhão de BTU para US$ 5. Também anunciou que 50% do gás extraído no país deverá ser destinado ao mercado interno. A Petrobras resiste.Brasileiros: O governo de Evo ainda não definiu o tratamento aos mais de 20 mil brasileiros que vivem do lado boliviano da fronteira. O Itamaraty fez o censo dessa população e deixou claro que não aceitará arbitrariedade.Sojeiros: A nova lei de reforma agrária boliviana poderá atingir os brasileiros que adquiriram propriedades na região de Santa Cruz de la Sierra, onde cultivam soja, um dos principais produtos de exportação da Bolívia.Aftosa: Os focos de febre aftosa na região de Santa Cruz de la Sierra levaram o Brasil a impor barreiras sanitárias na fronteira. Desde maio de 2006, o Brasil propõe-se a cooperar para a erradicação da doença na Bolívia.Usinas: A Bolívia protesta contra a construção de duas hidrelétricas no lado brasileiro do Rio Madeira. O Brasil acena com o projeto de uma hidrelétrica binacional na fronteira, com capital privado do lado brasileiro.

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