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Ex-diretor do BC avalia que intervenções são alerta

José Júlio Senna lembra, contudo, que esta é uma prática comum quando falta liquidez nos mercados. A única certeza que ele tem é que as oscilações devem continuar por um longo tempo

Cláudia Ribeiro, do estadão.com.br,

10 de agosto de 2007 | 17h06

O ex-diretor do Banco Central e sócio da MCM Consultores, José Júlio Senna, avalia que dois cenários podem agravar a situação nos mercados: uma redução do patrimônio líquido dos consumidores, que provocaria uma queda do consumo e, por conseqüência, uma desaceleração da economia norte-americana; e uma piora da saúde dos bancos comerciais. Segundo ele, as intervenções de bancos centrais no mundo podem ser vistos como um sinal de alerta, mas antes de tudo são práticas normais no mercado quando falta liquidez (volume de negócios). Ele destaca que o Brasil está preparado para passar por este chacoalhão no mercado e não faz previsões sobre quando este período deve terminar. "Um longo período de oscilações está por vir, pois o centro da crise, o mercado imobiliário norte-americano, ainda deve demorar um bom tempo para se tranqüilizar".   Ouça o áudio com a entrevista    Qual a extensão da crise atual?   Ninguém tem esta resposta. Mas, para que o final desta história seja infeliz, o que significa uma recessão da economia americana, dois cenários deveriam se materializar. O primeiro deles é uma diminuição do patrimônio líquido das famílias americanas, pois isso provocaria uma redução do consumo e afetaria a economia do país. Contudo, olhando para os dados de patrimônio das famílias (ações e imóveis), se vê um recuo expressivo, mas não uma desabada colossal.   A segunda questão é a saúde do sistema bancário comercial. São estes bancos que suprem o sistema de crédito. Dados apontam que 85% dos recursos ofertados são destes bancos. A última grande crise de bancos aconteceu em fim dos anos 80, mas naquela época o índice de capitalização dos bancos era muito baixo e o índice de inadimplência geral ficava entre 5% e 6%. Hoje fica abaixo de 2%. Ou seja, o sistema bancário está muito melhor. As instituições têm tido lucro recordes, os bancos estão mais ágeis e a fiscalização do sistema bancário é mais eficiente. Tudo o que está em volta é incomparavelmente melhor. Além disso, o mundo já não depende só do crescimento econômico norte-americano. Os emergentes deixaram de fazer parte dos problema para fazer parte da solução. Eles tem reservas crescentes e em volumes elevados. As empresas nos EUA estão muito lucrativas e não precisam dos bancos para continuar investindo.   As intervenções do BCs devem ser vistas como sinal de alerta ou como uma atitude para um problema que dá para resolver?   É um pouco dos dois. No Brasil, os bancos maiores doam para menores. Nos EUA, os menores dão para maiores. Agora, lá, eles decidiram não passar estes recursos, porque lá o dinheiro não tem colateral (garantia). Isso pode ser visto como um alerta. Por outro lado, intervenções de BCs são normais, pois eles têm esta obrigação de cumprir o target (alvo) estabelecido. Ou seja, a instituição tem que suprir o mercado com liquidez e trazer a taxa de juros do mercado para o alvo estabelecido. No caso americano, nestes dias, só houve um aumento do lote do que já é oferecido. Quem já tinha dinheiro continua com dinheiro, quem não tinha recebeu do banco central. Já se faz isso no dia a dia.   E para o Brasil, o que podemos esperar?   No Brasil, a variável chave é a percepção de risco. É isso o que mexe com câmbio, juros e Bolsa. Normalmente é assim. Se risco aumento, o fluxo cambial cai e provoca uma depreciação da moeda. Se o risco aumenta, precisa descontar este risco e as cotações de ações caem. Se risco aumenta, há uma redução no prazo das aplicações e os juros sobem.   Mas hoje a percepção de risco é boa, a solvência do País é excelente. O que temos em reserva é superior à divida de médio e longo prazo. Isso se deve à fase de ouro da economia mundial, mas é fato que a solvência do Brasil é boa. Um estresse deste tipo provocaria um expressivo aumento do risco e impacto forte em ações, câmbio e juros. Hoje isso ocorre, mas com menos força.

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