Ex-diretor do BC espera manutenção da Selic

Começa hoje a reunião mensal do Comitê de Política Monetária (Copom), que vai reavaliar a Selic, a taxa básica de juros da economia, atualmente em 19% ao ano. A maioria dos analistas acredita que os juros permanecerão no patamar atual. O ex-diretor do Banco Central (BC) e sócio da MCM Consultores, José Júlio Senna, reforça esta corrente. Segundo ele, o BC está atento à queda dos juros no mercado interbancário e são estas taxas que influenciam o preço do crédito. "Com juros baixos, o consumo é estimulado, o que pode pressionar os índices de inflação, que estão muito elevados em função da alta do dólar durante o ano", afirma. Para se ter uma idéia, os contratos de juros com vencimento em julho de 2002 pagam taxas anuais em torno de 20%. No início de outubro, estes papéis pagavam juros de 24%.Senna acredita que a queda da Selic neste momento poderia ser vista pelo mercado como um abandono da cautela por parte do BC, o que não é uma atitude compatível com a estratégia de atuação da autoridade monetária no mercado cambial. Segundo o ex-diretor do BC, grande parte da queda do dólar nos últimos dias é resultado de uma atuação agressiva do Banco Central no sentido de diminuir a pressão de alta sobre as cotações da moeda norte-americana. "Este objetivo foi favorecido por fatores muito positivos e poderia não ter sido alcançado, caso o BC contasse apenas com as suas intervenções no mercado, com a venda de dólares e títulos cambiais, além da determinação de um limite para as reservas cambiais dos bancos", afirma o ex-diretor do Banco Central. Perspectivas positivas favorecem queda do dólarSenna cita os fatores positivos que favoreceram a queda do dólar: a diminuição do déficit em conta corrente pelo aumento das exportações, o cumprimento da meta fiscal, a operação com as polonetas que aumentou os recursos em dólares para o Brasil em US$ 2,5 bilhões e o descolamento do Brasil em relação à crise argentina.Um déficit em conta corrente - balança comercial mais a conta de serviços - demonstra que um país necessita de financiamento externo. A expectativa anterior dos analistas para os números da conta corrente do Brasil era de um déficit em torno de US$ 25 bilhões de dólares, mas este valor foi reduzido para US$ 20,5 bilhões, segundo a última pesquisa divulgada pelo Banco Central. Esta redução, de acordo com Senna, deve-se principalmente a uma melhora das perspectivas para o saldo da balança comercial no próximo ano."Esperava-se um saldo positivo em torno de US$ 1,5 bilhão, o qual, devido à depreciação do real, subiu para US$ 6,5 bilhões." Senna explica que esta melhora foi provocada, além da desvalorização do real que beneficia as exportações, por um desaquecimento da economia interna que estima uma redução das importações. Ele também esclarece que esta perspectiva de saldo para a balança comercial já leva em conta o forte desaquecimento econômico dos Estados Unidos - responsáveis pela importação de grande parte da produção brasileira. Outro motivo para a queda do dólar, segundo Senna, foi o descolamento do Brasil da crise argentina. Para o ex-diretor do BC, a taxa de risco brasileira acompanhou a taxa argentina até o ponto em que o default - leia-se calote da dívida - passou a ser levado em conta pelos investidores. "A Argentina já pode ser considerada um país em default, o que está longe de acontecer com o Brasil. O mercado teve esta interpretação e, a partir daí, passou a analisar a situação brasileira independentemente do cenário argentino", diz Senna.Incertezas ainda existemO ex-diretor do BC destaca que os mercados foram tomados por uma onda de otimismo nos últimos dias e que alguns fatores preocupantes, que ainda existem, passaram a figurar em segundo planos na visão dos investidores. Ele acredita que enquanto perdurar esta onda de otimismo, o dólar deve permanecer nos patamares atuais - entre R$ 2,55 e R$ 2,60 -, mas não arrisca uma aposta para as cotações no próximo ano. Os motivos que ainda podem provocar uma pressão de alta sobre as cotações são: uma possível desvalorização do peso argentino, que vem sendo veementemente negada pelo governo da Argentina mas é um risco não afastado; a retomada da atividade econômica nos Estados Unidos esperada para o primeiro semestre de 2002, mas que ainda não pode ser dada como certa; e as eleições presidenciais no Brasil no próximo ano.

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