Ex-economista do FMI diz que Brasil corre risco após eleições

O governo do Brasil deverá ser capaz de lutar contra a crise financeira até as eleições de outubro, mas o novo governo deverá agir rapidamente para conquistar credibilidade junto aos investidores, disse o ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional, Michael Mussa. "Eu não acredito que o Brasil enfrente risco iminente de uma crise financeira", disse Mussa. "Se ela vier, virá no fim deste ano ou início do próximo", disse a um grupo de jornalistas e políticos internacionais durante o lançamento de seu estudo sobre a política do FMI na Argentina. Ao contrário da Argentina antes da moratória, o Brasil agora tem um considerável superávit primário, destacou. Mussa disse que as atuais metas de superávit podem manter os níveis de dívida pública estáveis com taxas de juros reais de cerca de 10%. O problema para o governo brasileiro é que o prêmio de risco sobre a dívida subiu para taxas de juros reais de aproximadamente 20%, disse ele. "Se elas continuarem nesse patamar, está claro que o Brasil não conseguirá". No curto prazo, os mercados podem ser acalmados por um acordo entre os candidatos presidenciais para respeitarem as metas do FMI, disse Mussa. Mas o perigo virá quando o novo governo assumir o cargo. Mussa relembrou ainda os erros do FMI que contribuíram para o desastre econômico na Argentina. Segundo ele, o FMI cometeu o maior erro quando completou o seu pacote de empréstimo de US$ 5 bilhões para Argentina no fim de 2001, quando deveria ter ficado claro para todos que o programa não tinha nenhuma chance de sobreviver. Mussa disse que o Fundo deveria ter sido mais rígido em exigir do governo o cumprimento das metas fiscais antes que o país entrasse na atual recessão de quatro anos. Para que um novo programa funcione, o FMI provavelmente terá de aceitar a continuidade de uma certa quantidade de emissão de moeda para financiar os déficits no orçamento, disse Mussa. A inflação não deverá cair para um único dígito até o final do ano, disse, acrescentando que um objetivo realista será o de evitar a hiperinflação. Ambições de reativar o sistema bancário deveriam, portanto, ser modestas, limitadas ao funcionamento do sistema de pagamentos. A confiança exigida para que os bancos reconquistem crédito e depósitos não pode ser retomada rapidamente, disse ele.

Agencia Estado,

16 de julho de 2002 | 18h05

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.