Ex-embaixador cobra atitude firme contra decisão da Bolívia

O ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, que atualmente preside o Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, pede uma posição mais firme do Brasil diante da estatização do setor petrolífero na Bolívia. "O governo brasileiro está diante de um fato consumado de difícil tratamento, porque até agora o presidente e os ministros têm mostrado uma solidariedade irrestrita ao presidente Morales", constatou o embaixador em entrevista para o Jornal da Globo.Ele exortou o governo a tomar uma atitude concreta para defender os investimentos naquele país. "A medida é drástica e não haverá indenização, porque não há recursos na Bolívia", argumentou Rubens Barbosa. "Isso vai exigir um tratamento muito direto do governo para assegurar a defesa dos interesses da empresa estatal brasileira."LiderançaO embaixador disse ainda que o governo brasileiro foi pego de surpresa no episódio, depois dos entendimentos mantidos pelo presidente Lula com os colegas Evo Morales, Kirchner e Hugo Chávez. "Não (foi surpresa) para os que estavam acompanhando e que sabiam que alguma coisa drástica ia ser tomada", alfinetou Rubens Barbosa. Ele acha que chegou a hora de o Brasil exercer o papel de líder sul-americano. "A liderança não se proclama, ela se exerce", proclamou. "E, no caso, o governo brasileiro tem de exercer essa liderança hoje, para evitar que essa medida se repita em outras áreas", citando como outro exemplo potencial o caso da Venezuela. O embaixador estima que esse tipo de atitude pode até mesmo afugentar investidores internacionais da região. "Porque essa insegurança jurídica que está sendo criada agora vai ter efeitos para todo o continente, inclusive sobre o Brasil."Especialista teme ´apagão do gás natural´O professor Adriano Pires, da UFRJ, que é especialista em energia, adverte que a decisão de Evo Morales de estatizar o setor de petróleo e gás da Bolívia coloca o Brasil sob risco de um novo apagão. Nos últimos dez anos, a Petrobrás apostou na parceria com a Bolívia e investiu cerca de US$ 1,5 bilhão, tornando-se a maior empresa do país vizinho. "Vamos ver se o preço vai aumentar e quanto. E vamos ver também em que medida essa nacionalização vai afetar a oferta de gás no Brasil", ponderou o professor em entrevista ao Jornal das Dez, da Globo News. "Se essa crise da Bolívia realmente afetar o mercado das distribuidoras fazendo com que elas tenham de cortar determinados consumidores, a gente vai ter uma situação muito parecida com 2001/02, quando vivemos o apagão de energia elétrica."PopulismoPara o especialista, o decreto de Evo Morales vai prejudicar qualquer tipo de investimento na Bolívia e também o desenvolvimento do mercado de gás no Brasil. Mas será uma oportunidade para o governo brasileiro avaliar melhor futuras parcerias com governos vizinhos e projetos ambiciosos, como o gasoduto que ligaria a Venezuela à Argentina.A solução seria investir na exploração das jazidas brasileiras. "Construir o gasoduto na Venezuela significa aumentar exponencialmente os problemas que se tem hoje com a Bolívia", advertiu. E propôs: "Eu acho que se o governo brasileiro quiser resolver a crise de gás que o Brasil passa hoje, a gente tem de trabalhar para aumentar a oferta interna de gás." Afirmou ainda que a crise embute algumas lições: "A primeira, é entender que fazer integração latino-americana com um país que é governado por um regime populista não vai a lugar nenhum."

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