Gabriela Herman/NYT
Gabriela Herman/NYT

Ex-executiva escreve romance sobre a crise de 2008

Maureen Sherry, ex-diretora administrativa do banco de investimentos Bear Stearns, queria fazer com que o público entendesse a crise das hipotecas

Alessandra Stanley, The New York Times

17 Fevereiro 2016 | 13h07

Uma mulher forte e inteligente luta para romper o teto de vidro duplo de uma importante firma de investimentos de Wall Street.

Uma banqueira de investimentos rica e bonita extermina títulos lastreados em hipotecas, o fardo tóxico da dívida que em 2008 deixou a economia à beira de um colapso.

Na verdade, as duas pessoas são a mesma: Isabelle, a heroína de "Opening Belle", a novela cômica e semiautobiográfica em primeira pessoa de Maureen Sherry, ex-diretora administrativa da Bear Stearns, que fechou em 2008.

"Não acho que usei a dor das pessoas", diz Maureen, sentada à mesa da sala de jantar de seu apartamento na Quinta Avenida com vista para o reservatório do Central Park. Ela afirma que queria escrever sobre a crise das hipotecas de uma maneira atraente para que o público comum pudesse entender e também para mostrar a eles que muitos banqueiros foram tão enganados quanto o resto das pessoas.

"É fácil bater em Wall Street, e ouvimos muito disso por aí. Também queria deixar claro para os leitores as coisas boas que os bancos fazem assim como as más."

"Opening Belle" é uma brincadeira com um subgênero de ficção literária feita por mulheres conhecido por "chick lit" ("literatura de garotas"). A Warner Bros. está desenvolvendo uma versão para o cinema com Reese Witherspoon.

Também é o mais recente em um número crescente de livros, peças, programas de televisão e filmes que falam sobre Wall Street durante e depois da crise de 2008. Existem duas séries de televisão a respeito de Bernard L. Madoff, que foi preso em 2008 por executar uma das maiores fraudes da história.

A Sony Pictures Classics comprou os direitos do "Equity", um livro de suspense sobre um banqueiro de investimento que é boicotado por executivas rivais. "A Grande Aposta" foi indicado ao Oscar de melhor filme. "Billions", no Showtime, é um drama sobre a Wall Street dos dias atuais com as marcas da crise financeira. (Andrew Ross Sorkin, do New York Times, é um dos criadores do programa.)

O livro de Maureen é uma comédia animada no estilo de "O Diário de Bridget Jones".

Como sua heroína, Maurren trabalhou no pregão do Bear Stearns, na época um lugar notoriamente turbulento. Ela diz que ignorava as brincadeiras dos homens. "Sentia-me envergonhada algumas vezes, mas não insegura", conta.

Ela saiu em 2008 para tomar conta da família que crescia, não para fugir de um lugar de trabalho hostil, mas afirma que se sentiu frustrada por causa das barreiras impostas contra o seu avanço. Então, Maureen começou a pensar sobre o que queria dizer a respeito das mulheres em Wall Street, conseguiu um mestrado em Columbia e escreveu um livro infantil. Além disso, redigiu recentemente um artigo no New York Times sobre desigualdade de salários e sexismo.

Em seu romance, apresenta essas experiências como uma farsa. O tom cômico, explica, faz com que o assunto fique mais acessível e "amplia a conversa".

Isabelle aguenta as piadas indecentes e as apalpadas de colegas e dos chefes para vender, entre outras coisas, obrigações de dívidas garantidas, ou CDOs (na sigla em inglês de "collateralized debt obligations"). Em 2007, ela está no rolo compressor do mercado de ações - até que esse mercado entra em colapso, acabando com seus ganhos e jogando mais de um milhão de pessoas na rua.

Depois que o mercado começa a desmoronar, Isabelle e um cliente olham mais de perto para os registros dos bancos subjacentes, focando em uma família de Nebraska que está sendo despejada. "Quando percebi tudo, nos sentamos ali por um momento com uma sensação de perplexidade", escreve Isabelle no que é apresentado como suas memórias. "Nunca havia visto as coisas acontecerem desse jeito."

Os temas do romance dividem o mercado editorial de massa. Alguns observadores dizem que os leitores podem vê-lo como literatura ligeira, mas também como uma parábola inspiradora de empoderamento. "Acho que pode funcionar", afirma Louisa Ermelino, diretora de críticas da Publishers Weekly, que não leu o livro, mas conhece sua essência. "Mesmo que seja rica e poderosa, ela ainda é uma mulher contra os homens de terno de Wall Street."

Para outros estudantes do gênero, no entanto, é um livro muito a favor do um por cento.

"Esperaria que um romance falando da crise das hipotecas olhasse para a situação precária de trabalhadoras comuns", diz Suzanne Ferriss, professora de Inglês na Universidade Nova Southeastern, de Fort Lauderdale, na Flórida, e coeditora de "Chick Lit: The New Woman's Fiction" (Literatura de Garotas: a nova ficção feminina).

A heroína de "Opening Belle" se parece com Maureen, mas com um pouco menos de dourado e brilho. "Queria que fosse mais fácil entendê-la", afirma a autora.

As duas foram para Cornell. Isabelle é a primeira americana da família. O pai de Maureen foi imigrante irlandês. Quando jovem, trabalhava como porteiro no mesmo prédio da Quinta Avenida onde seu chefe, Alan C. Greenberg, o lendário presidente do Bear Stearns, que morreu em 2014, teve um apartamento.

Isabelle tem três filhos e um marido bonitão que não trabalha (e também não faz as tarefas de casa). Eles vivem no Central Park West.

Maureen tem quatro filhos e é casada com o investidor de títulos privados Steven B. Klinsky. Eles possuem uma casa em Southampton, e seu apartamento de 400 metros quadrados com paredes revestidas de madeira já foi parte de um tríplex construído para a filantropa Marjorie Merriweather Post.

Em um ano bom, Isabelle ganha US$3 milhões. Maureen afirma que pensou em como isso ia soar para os leitores, mas quis ser realista. "Detesto o termo 'pobre de Manhattan'", diz ela, afirmando que, depois dos impostos, como um casal com um salário e três crianças em escolas privadas, "Eles não vivem no luxo".

"Isabelle pensa que é OK querer ganhar dinheiro. E ambição não é uma coisa ruim", conta Maureen.

Maureen entrevistou antigos colegas e a nova geração de banqueiros. Descobriu que apesar de a maioria dos assédios ostensivos terem parado, os obstáculos permanecem, especialmente para mães que trabalham. "Elas acham que nunca tiveram um desempenho tão bom, mas mesmo assim se sentem deixadas de fora", explica.

Na Bear Stearns, Maureen e suas colegas brincavam de se referir a si mesmas como o "Clube do Teto de Vidro". No romance, Isabelle se junta a uma sociedade secreta com o mesmo nome. Suas colegas compartilham as queixas sobre os homens e sobre as jovens assistentes do pregão que flertam com os chefes e deixam que pensem que todas as mulheres gostam de seus avanços. Uma delas se veste de modo tão provocativo que seu apelido é "Garota Nua".

Maureen diz que seus editores cortaram uma cena em que uma mulher vai almoçar com o chefe para discutir suas contas e ele, ao invés disso, a convida para passar a tarde na cama. Maureen afirma que conhece mulheres que tiveram essa experiência na vida real.

Uma delas é Sandra Ripert, hoje corretora de imóveis, que há 25 anos era assistente da Bear Stearns e aspirante ao pregão e achava que não era levada a sério porque não tinha o diploma e as conexões necessárias.

"Como mulher e latina - eu tinha uma aparência muito sensual - era difícil progredir", conta Sandra.

No início dos anos 90, Sandra, que ganhava US$24 mil por ano, conta que um chefe a convidou para almoçar e ela pensou que poderia estar sendo promovida. Ao invés disso, afirma, o chefe disse que havia reservado um quarto para eles. Ela deixou a firma pouco depois.

Na época, diz Sandra, achava Maureen "muito profissional e quieta", e também invejável. "A gente só queria ser uma Maureen Sherry."

Mais conteúdo sobre:
Hipoteca

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.