Ex-operadores do Santander negam fraude e acusam superiores

Os ex-operadores do Banco Santander Marcos Aylon Leão Luz e Roberto Cantoni Rosa, acusados de realizar operações fraudulentas que causaram um desfalque de pelo menos US$ 1,9 milhão na tesouraria do banco, afirmaram em seu primeiro depoimento ao delegado Rui Ferraz Fontes, da Delegacia de Roubo a Bancos, que são inocentes das acusações.Eles disseram no depoimento, realizado das 20 horas desta segunda até às 4 horas desta terça, que vinham sofrendo represálias de seus superiores na instituição financeira, desde que se recusaram a continuar maquiando resultados a pedido do próprio banco.O advogado Fernando Castelo Branco, que defende os acusados e acompanhou os depoimentos, disse que as acusações de fraude resultaram de uma série de fatos obscuros, iniciados depois que os dois operadores brigaram com o seu superior imediato, Benedito César Luciano."Eles contam que, no início do ano passado, Luciano os procurou e pediu que maquiassem resultados das operações, para que o balanço do banco apresentasse um lucro menor", relata o advogado. Leão Luz e Rosa aceitaram maquiar as operações até o final do ano passado, quando resolveram desistir. "Imediatamente foram rebaixados de função. Brigaram feio com Luciano e ameaçaram revelar ´coisas que sabiam´ sobre o banco", afirma o advogado.Em dezembro, Leão Luz chegou a ser intimado para depor na Delegacia de Roubo a Bancos. "Quando procuramos saber do que se tratava, descobrimos que o vigia da noite havia recebido um telefonema anônimo, dizendo que o operador estava roubando o banco. Ele registrou o boletim de ocorrência e, no dia seguinte, foi intimado por uma viatura que chegou no banco, com a sirene ligada", conta o advogado. "Parece uma clara atitude de intimidação".De acordo com o advogado, os operadores contaram em seus depoimentos que este jogo de pressões se arrastou por várias semanas, até que eles foram demitidos no início de janeiro. Na semana passada, os dois e, ainda, Lincoln Dias Miranda, foram indiciados em inquérito policial por fraude contra o banco e presos. "A situação de Lincoln é mais grave. Ele está fora do banco desde o início do ano passado e nem sabe porque foi preso", diz o advogado. Lincoln ainda não prestou depoimento.Os dois justificaram o dinheiro que ganharam nos últimos anos, e que a polícia suspeita que tenha vindo das fraudes, realizando operações como pessoa física no mercado financeiro. O advogado diz que eles reconhecem que se utilizavam de informações privilegiadas e do crédito que tinham utilizando o nome do banco, para fazer operações pessoais no mercado financeiro. "Isso é ilegal, porque tinham um contrato com o banco que os proibia de agir assim. Mas é uma prática comum nas mesas de operações da grande maioria dos bancos", afirma Castelo Branco. De acordo com o Santander e com a polícia, os três operadores e uma corretora de valores de São Paulo, cujo nome ainda é mantido em sigilo, fraudavam as comissões cobradas pelo banco em operações de swap e embolsavam a diferença."Eles fechavam, por exemplo, uma operação onde cobravam do cliente uma comissão de 10%, mas no fim do dia contabilizavam na ´mesa de balanço´ uma comissão de apenas 9%. O 1% restante, que deveria ir para a tesouraria do banco, ficava com a corretora, que depois distribuía entre o grupo", relatou o delegado. De acordo com o advogado, não foi apresentada nenhuma prova destas fraudes.Todas as operações, normalmente realizadas por telefone na mesa do banco, devem ser gravadas. O confronto das gravações com o balanço apresentado pelos operadores no final do dia teria confirmado as fraudes, segundo o delegado. "Mas a verdade é que não foram apresentadas as gravações, mas apenas algumas transcrições, apresentadas pelo banco", alega o advogado. "Queremos uma investigação profunda de todos estes fatos", afirmou ele.

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