Cassiano Rosário/Futura Press
Cassiano Rosário/Futura Press

Ex-presidente da Andrade tenta superar a Lava Jato

Otávio Azevedo, que comandou um dos maiores grupos do País, busca voltar ao mercado após prisão

Mônica Scaramuzzo e Renata Agostini, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 05h00

Era sábado de carnaval, mas a festa seria discreta no edifício Caroline, no bairro paulistano da Vila Nova Conceição. No nono andar, Otávio Azevedo, ex-presidente da holding Andrade Gutierrez, um dos maiores grupos empresariais do País, aguardava a chegada de amigos e familiares que há oito meses não via.

Percorrera de carro na véspera os cerca de 400 quilômetros que separam o Complexo Médico Penal, em Pinhais (PR), da zona sul de São Paulo. Estava, enfim, em casa. E ela estava preparada. Naquela manhã, canapés e bebidas circulavam pelo apartamento, decorado com arranjos de flores e um Otávio de papelão em tamanho natural. Havia motivos para celebrar.

A tensão voltou, contudo, na quarta-feira de cinzas daquele fevereiro de 2016, quando a Polícia Federal o levou de volta à prisão por decisão do juiz Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro. Após dois dias, Otávio pôde voltar definitivamente ao edifício Caroline, mas não havia clima para festa. À frente de um conglomerado com receitas de R$ 15 bilhões e um dos homens mais poderosos do País antes de a Lava Jato chegar, Otávio colocou sua tornozeleira eletrônica e submergiu na prisão domiciliar – com a esperança, porém, de se refazer.

Livre do monitoramento desde dezembro do ano passado e em fase final de cumprimento de pena, Otávio está agora determinado a voltar ao mercado. A condição de delator e ex-presidiário não o desanima. Oficialmente, ocupa-se de tarefas burocráticas num cartório da Justiça Federal em São Paulo, função que cumprirá como parte de sua pena até 2019. Paralelamente, porém, movimenta-se para deslanchar sua carreira de investidor e consultor empresarial – ou advisor, no jargão do mercado.

Tem circulado por escritórios de São Paulo, reavivando os antigos contatos. E não para de maquinar operações, segundo relato de pessoas próximas e investidores que estiveram com ele nos últimos meses. Procurado, Otávio Azevedo não quis dar entrevista.

Em fevereiro deste ano, viajou para Londres com a ideia fixa de falar com investidores e montar um fundo de private equity. Quer ter parceiros para comprar empresas no Brasil. Um dos focos de sua atenção foi a empresa de call center Contax, rebatizada de Liq, que pertencia à Oi nos tempos em que a Andrade Gutierrez era sócia da operadora. 

Uma fonte próxima ao empresário conta que ele chegou a sondar a empresa. O plano era reunir investidores dispostos a adquirir com ele a companhia, que foi uma das maiores do mundo no setor, mas passou por várias reestruturações financeiras e tem dívida hoje de cerca de R$ 1,5 bilhão. Há receio dos possíveis investidores de se aliar, nesse momento, a Otávio numa empreitada empresarial. Procurada, a Liq informou, em nota, que “tem capital aberto e disperso. Por isso, suas ações podem ser adquiridas por qualquer pessoa física ou jurídica”. 

Dificuldade. Talento e experiência não faltam a Otávio, dizem amigos e executivos que já trabalharam com ele. Mas, diante da exposição da Lava Jato e dos crimes confessados na condição de colaborador, a tarefa de se recolocar no mercado não será fácil. “Ele não se convence de que é ótimo nos negócios, mas, ao menos no momento, sua imagem ainda é muito tóxica, é uma pena”, diz um colega, que falou sob reserva. 

Aos 67 anos, Otávio, pai de quatro filhos, ressente-se da distância de alguns que se diziam seus amigos nos tempos em que comandava a Andrade Gutierrez e das muitas portas ainda fechadas. Reclama com frequência disso. Mas acredita que é questão de tempo para mudar sua imagem. 

O que o move, diz um amigo, é o desejo de que sua trajetória profissional não seja, ao fim, definida pelos episódios revelados pela Lava Jato. Poderia, ao fim da pena, viver em Lisboa, onde tem há anos apartamento. Segue, porém, disposto a refazer a vida no Brasil.

Para essa tarefa, além dos encontros, chegou a acalentar a vontade de lançar um livro com relatos de experiências vividas e correspondências de seu tempo no cárcere. 

Durante o período em que ficou preso em Curitiba, sua mulher, Adriana, contatou amigos e executivos do conglomerado para que enviassem cartas de apoio ao marido, que estava deprimido. Um ex-funcionário de alto escalão da Oi foi um dos procurados, mesmo, segundo ele, não sendo tão próximo a Otávio. As centenas de correspondências foram cuidadosamente guardadas em pastas pelo ex-presidente da Andrade, que costumava mostrá-la aos amigos que o visitavam logo após deixar a prisão. 

Ninguém próximo aposta, no entanto, que a publicação, caso chegue a se concretizar, venha a trazer revelações danosas aos antigos patrões. 

Trajetória. Homem de confiança dos donos da Andrade Gutierrez, o engenheiro de tradicional família de Belo Horizonte chegou à Andrade para cuidar da área de telecomunicações, nos anos 1990. Seu prestígio subiu no grupo conforme os investimentos do conglomerado no setor cresciam – a empresa virou uma das sócias da então “supertele” Oi, a campeã brasileira que ajudou a criar com seus bons laços em Brasília, mas sucumbiu à crise, com dívidas. Em 2007, tornou-se presidente da holding, que àquela altura prosperava com braços em engenharia, construção, telefonia e concessões. 

Passou a deter poder numa das maiores empreiteiras do País e influência nas rodas do Planalto. Era recebido por políticos com salamaleques reservados aos donos das maiores construtoras do Brasil. Adorava e exercia com desenvoltura a função. Foi preso em junho de 2015 com Marcelo Odebrecht, numa das mais impactantes operações da Lava Jato. 

Até o último momento, Otávio acreditava que não seria preso – no máximo, chamado como testemunha, como ocorreu no caso da família controladora do grupo. Tornou-se delator e deixou a Andrade Gutierrez após 22 anos de serviços prestados. Até hoje mantém relação amistosa com Sérgio Andrade, dono do conglomerado, que entrou em crise desde que as denúncias de corrupção vieram à tona e corre para vender ativos na tentativa de pagar dívidas e sobreviver.

A prisão e a delação, na qual confessou ter cometido crimes como pagamento de propina a políticos, interromperam de forma abrupta sua carreira. Ele espera agora recomeçá-la. “Não vou chegar aqui, me ajoelhar e dizer: ‘Eu me arrependi’”, disse em palestra em setembro de 2017, na qual falou sobre a experiência na prisão. “São meus atos, é o que eu faço no dia a dia que pode dizer se tenho arrependimento ou não.”

Adaptação. Na prisão, Otávio Azevedo mostrou ser um homem de fácil trato, disciplinado nos exercícios e nas orações, segundo relato de um ex-companheiro de cela. Na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde ficou inicialmente, nutria o hábito de caminhar pelo corredor e passar longos períodos escrevendo cartas aos amigos. Mas fazia questão de se enturmar com os presos comuns.

Quando foi transferido ao Complexo Médico Penal, em Pinhais (PR), logo se ofereceu para participar do futebol. Resignou-se na condição de goleiro. Um colega que conviveu com ele no cárcere lembra que vez ou outra via Otávio doando suas roupas de frio para os presos que lá chegavam. Nos oito meses em que ficou recluso, agarrou-se mais à fé – não perdia os cultos realizados na prisão – e aos livros.

A um amigo próximo, disse que os 223 dias de detenção foram os piores momentos de sua vida. Mas o constrangimento maior foi quando a Polícia Federal voltou a bater a sua porta na quarta-feira de carnaval de 2016, poucos dias após ser solto. A cena foi presenciada pelos netos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.