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Excesso de poupança

Os mercados olham para Bernanke como gato de apartamento que, à chegada do dono, mia aflito pedindo seu pires de leite.Ben Bernanke é o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). É dele que podem provir decisões salvadoras para reverter a trombose do fluxo do crédito global.O discurso de Bernanke feito ontem, em Berlim, vinha sendo aguardado com enorme expectativa. Esperava-se que desse indicações preciosas do que o Fed está para fazer para virar o jogo.Mas Bernanke limitou-se a uma exposição com roupagem acadêmica que atualiza análise feita em 2005 sobre o excesso de poupança global (saving glut).Ao contrário do que concluiu a maioria dos analistas que ontem trataram do assunto, o conteúdo da fala de Bernanke tem, sim, muito a ver com as origens da crise, embora ele não tenha apontado nessa direção.O estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos está ligado à farta distribuição de créditos hipotecários de alto risco (subprime) para quem não está em condições de honrar as prestações do imóvel comprado. Daí o aumento da inadimplência, o rombo patrimonial das empresas e bancos que concederam os financiamentos, a quebra do fluxo do crédito, a corrida para os ativos de segurança e tudo o mais.Embora Bernanke não o tenha mencionado, essa fartura de crédito de risco tem origem nessa mesma abundância de poupança global que escorre há dez anos para os Estados Unidos. Provém do superávit externo de um punhado de emergentes (China, Índia, Taiwan, Rússia, Coréia do Sul e ultimamente também o Brasil) e dos exportadores de petróleo. Só há superávit de um lado do mundo porque há déficit de igual tamanho no outro. Esse déficit está concentrado nos Estados Unidos, que se atiraram ao consumo e, por isso, vêm absorvendo o excesso de poupança.Um dos mais importantes efeitos desse arranjo é a compressão dos juros pagos pelos ativos mais seguros. Essa montanha de poupança se transformou nas reservas externas dos emergentes (e dos exportadores de petróleo), que, por sua vez, aplicaram esses recursos em títulos do Tesouro americano. É pela venda desses títulos que a poupança migra para os Estados Unidos. Assim, a enorme procura por esses ativos derrubou seu rendimento (yield), o que vai empurrando os poupadores do mundo para aplicações de mais risco.Um grande número de analistas argumenta que essa situação reflete enorme desequilíbrio que exige conserto imediato. Bernanke não pensa assim. Afirma que a atração de tanta poupança mostra as excelentes condições da economia americana, que mata ainda no ovo os germes da recessão e que não é um fardo pesado para os Estados Unidos. Mas ele reconhece que, a longo prazo, essa situação é insustentável.A questão de que Bernanke não trata e que precisa de exame é a de que, na condição de causa de bolhas consumistas, esse excesso de poupança canalizado para os Estados Unidos tende a criar novas bolhas. Se nada se fizer, uma vez resolvida a parada do subprime, outra encrenca tende a se formar.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 00h00

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