Excessos no dólar

Há razões técnicas, derivadas de fragilidades nos chamados fundamentos da economia, de mudanças na política econômica e nas condições do mercado internacional de moedas, para a escalada do dólar. Mas há também motivações de outra ordem, com origem no clima político deteriorado, a sustentar, nas últimas semanas, uma turbulenta desvalorização do real.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2015 | 02h03

É a combinação dessas duas vertentes que introduz no mercado cambial elementos sem base racional para fomentar uma disparada da moeda americana. A partir do fim de janeiro, em 30 dias úteis, o dólar subiu mais de 20% ante o real, saindo de uma cotação de R$ 2,57 para bater em R$ 3,12, na sessão de ontem. É um movimento muito rápido e muito forte para se apoiar apenas na necessidade de um ajuste destinado a reequilibrar as contas externas.

O nome do jogo que explica esse movimento acelerado é overshooting. Sem uma palavra correspondente no vernáculo, a expressão em inglês, de uso corrente nos mercados de ativos, denota excesso nas cotações, para cima ou para baixo, em relação ao nível determinado apenas pela condições econômicas concretas. Esse excesso, costumeiramente, se vincula a reações emocionais de investidores, potencializadas por movimentos do tipo "efeito manada".

Ainda que os mercados atingidos voltem ao que se pode considerar normal em prazo relativamente curto, os estragos dos overshootings podem não ser pequenos. Eles ajudam a minar ainda mais níveis de confiança já baixos, paralisam decisões e, tudo somado, afetam negativamente os negócios. Quando encontram terreno propício - ou seja, quando a economia se encontra em período de desajustes em várias frentes -, estimulam profecias autorrealizáveis, podendo provocar corridas a ativos.

Um episódio do tipo ocorreu na transição do governo de FHC para o de Lula, no segundo semestre de 2002. As crescentes perspectivas da eleição do petista desencadearam temores de que o novo governo promoveria um calote da dívida externa, recém-negociada com o FMI. A cotação do dólar, que iniciara o ano em R$ 2,30, escalou para R$ 3 em agosto e bateu em R$ 3,90, em outubro, logo depois do primeiro turno, mas em junho de 2003 já estava abaixo de R$ 3.

A maneira como o então candidato da oposição enfrentou o vapor contrário poderia servir de lição para o momento atual. Agora, como em 2002, parece ser o caso de enfrentar o ambiente adverso com iniciativas mais políticas do que técnicas. Até pelo fato de ainda não estar no governo, Lula não tinha como intervir com medidas específicas para segurar a taxa de câmbio e valeu-se de uma ação puramente política - o lançamento da "Carta aos brasileiros", na qual se comprometia, pública e solenemente, a cumprir todos os contratos firmados pelo governo.

Da tendência à valorização do dólar nos mercados globais, em razão da melhora mais acelerada da economia americana, ao tamanho crescente do déficit externo brasileiro e à piora na composição do seu financiamento, movimentos de desvalorização do real ante a moeda americana são expressões de uma conjuntura econômica de normalidade. Isso é ainda mais verdade ante a decisão do governo de reduzir as intervenções no mercado cambial e permitir um ajuste realista da taxa de câmbio à situação mais adversa das contas externas.

Enfrentar o overshooting, porém, requer outras armas - preferencialmente políticas. Ainda que tenha de instrumentos para moderar escaladas do dólar e mesmo que não se veja no horizonte um processo aberto de fuga de capitais, a experiência histórica mostra que, em ambiente de overshooting, torrar reservas internacionais, como no 2.º semestre de 1998, véspera da mudança do regime cambial, para segurar a cotação do dólar, funciona menos que enxugar gelo.

A verdade é que, enquanto o governo não conseguir convencer que reúne condições políticas de negociar com o Congresso e manter o rumo da economia, o mercado cambial continuará tenso e turbulento.

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