Execuções de hipotecas trazem horror à Grécia

Depois de três pacotes de socorro de ¤ 300 bilhões, Grécia não recupera seus bancos, que cobram dos mutuários inadimplentes e tentam leiloar imóveis

Niki Kitsantonis NEW YORK TIMES / ATENAS, GRÉCIA, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2016 | 05h00

Mesmo depois de se aposentar como contador, Michalis Hanis controlava diligentemente os pagamentos da hipoteca de uma pequena casa em um subúrbio de Atenas, onde vive há 23 anos. E foi assim até alguns anos atrás, quando a crise econômica se abateu sobre a Grécia.

Como parte das medidas de rigor exigidas pelos credores do país, o governo cortou sua aposentadoria em 35%; como as dívidas nacionais, as suas também cresceram. Agora ele se juntou as dezenas de milhares de gregos que lutam para salvar suas casas, pois uma súbita onda de despejos começou este ano, gerando protestos cada vez maiores por todo canto.

“É como um filme de terror. Você não consegue relaxar nunca. Só quero proteger a minha casa”, disse Hanis, de 63 anos, que toma antidepressivos e calmantes para encarar a situação.

Os credores do país têm pressionado o governo para permitir o leilão das propriedades dos inadimplentes, coletando milhões de euros que poderiam ser usados para sustentar os bancos gregos, que estão mal.

Eles contam com ¤ 108 bilhões, ou aproximadamente US$ 119 bilhões, em empréstimos podres, pouco menos da metade de todos os empréstimos feitos. Destes, 41 % são hipotecas inadimplentes.

O verdadeiro desafio é resolver o problema desses empréstimos de uma forma que garanta alguma esperança aos devedores como Hanis, mas sem prejudicar o sistema bancário.

Essa equação pode ser difícil de resolver.

O país recebeu três pacotes de perdão internacional de mais de ¤ 300 bilhões nos últimos seis anos, mas não conseguirá se recuperar se seus bancos afundarem.

Desde a assinatura do terceiro pacote, no verão de 2015, o primeiro-ministro Alexis Tsipras tem menos com que barganhar com seus credores. Os críticos dizem que ele fez concessão após a concessão, apesar das promessas de proteger as moradias.

Autoridades do governo insistem que as casas estão seguras. Giorgos Stathakis, ministro da Economia, disse em um comunicado que “as casas já estão protegidas no que se refere a dívidas com bancos”.

“As autoridades também estão analisando maior intervenção nos débitos exclusivos com o Estado”, acrescentou ele, referindo-se a outras dívidas, como impostos não pagos.

Porém, no primeiro semestre, o governo acabou com a proibição da venda de hipotecas não pagas e de cobrança de empréstimos para pequenas empresas. Em meados do ano, novas leis foram aprovadas para permitir que os bancos iniciem as execuções no caso de devedores considerados não cooperativos.

Os gregos estão furiosos e se sentem traídos. Em uma campanha inspirada em iniciativas dos cidadãos na Espanha há alguns anos, os proprietários e os seus apoiadores têm feito manifestações contra os leilões em todo o país.

Toda quarta-feira, quando os leilões são realizados, os manifestantes se reúnem em frente a tribunais, bloqueando o acesso do pessoal jurídico, entrando em salas de audiência e, em uma ocasião, até confrontando a tropa de choque. Entre os que protestam estão grupos como os esquerdistas Fim das Execuções e Den Plirono (não pagarei) além de grupos de direita.

Sem garantias. Stefanos Grigorakis, do grupo nacionalista Frente Unida Panpopular, participou de um protesto em uma quarta-feira recente, em frente ao Tribunal de Atenas. Ele disse que as garantias do governo eram falsas.

“É um engodo para que as pessoas fiquem em casa e não façam nada. Os gregos têm que acordar. Estão entregando a riqueza pública”, disse ele, referindo-se aos planos do governo para privatizações. “Agora eles querem tomar nossas casas.”

Os protestos impediram dezenas de despejos nas últimas semanas. Os leilões começaram em setembro, quando os advogados gregos retornaram ao trabalho, após uma greve de nove meses, por causa de cortes em suas aposentadorias.

Em um discurso no Parlamento este mês, Tsipras defendeu a luta de seu governo para proteger os proprietários. Ele disse que houve apenas 500 despejos este ano e nenhum em 2015, quando seu partido esquerdista, o Syriza, chegou ao poder; sob os governos anteriores houve milhares.

Os notários e a Associação dos Mutuários Gregos disseram que o total foi superior, embora não tenham os números exatos. O chefe da associação, Vangelis Kritikos, disse que cerca de 50 mil propriedades terão reintegração de posse no ano que vem. “As pessoas estão em pânico. Todos os dias, recebemos umas 500 chamadas.”

Enquanto isso, proprietários como Hanis permanecem no escuro. Ele fez duas hipotecas, em 2001 e 2012, no valor de ¤ 71 mil. Quando sua aposentadoria foi cortada, pediu ajuda aos bancos, que o aconselharam a fazer novos empréstimos para pagar os antigos. É como a Grécia pegando mais empréstimos dos credores. É só mais dívida para pagar a dívida antiga, mas o que mais eu poderia fazer?”

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