Executivas dos EUA questionam cotas em conselhos

Política para aumentar a presença de mulheres no comando das empresas é muito adotada na Europa, mas enfrenta resistência nos Estados Unidos

DANIELLE PAQUETTE, WASHINGTON POST

16 Fevereiro 2015 | 02h03

Barb Stinnett, uma das primeiras aficionadas por informática, tornou-se diretora de vendas mundiais da Hewlett Packard em 2000. Ela tinha 41 anos, era uma rara executiva no setor de tecnologia e a única mulher a se sentar no conselho de administração da American Multiplexer Corporation, uma empresa de telecomunicações públicas no Vale do Silício.

Barb considerava com otimismo que a proporção de gêneros acabaria se equilibrando - naquela mesa e em todo o país. "Mas há 30 anos desde que iniciei minha carreira", disse ela, "não houve quase nenhuma mudança." Apesar da falta de mudança e do forte desejo de que ela aconteça, Barb e muitas mulheres de negócios americanas não estão interessadas em promover uma das poucas medidas que aumentaria rápida e dramaticamente a presença de mulheres nas diretorias de empresas: as cotas.

Trata-se de uma medida que muitos países europeus adotaram acompanhando uma decisão da Noruega de 12 anos atrás de tornar obrigatórias as cotas de gênero em diretorias de corporações. França, Espanha, Itália, Holanda e Alemanha adotaram medidas semelhantes de lá para cá. O Reino Unido pode não estar longe disso. O secretário britânico dos Negócios, Vince Cable, anunciou recentemente que a cota pode se tornar obrigatória se não houver progressos mais rápidos sem ela.

Por que a ideia é rejeitada por tantas mulheres americanas? É uma resposta complicada. Em primeiro lugar, persistem dúvidas sobre a eficácia das cotas para resolver os problemas sistêmicos que levam a uma representação desigual. Além disso, há temor de que a medida possa taxar candidatas brilhantes como contratações forçadas.

Este medo de "mudanças simbólicas" não aflora apenas em conversas com executivas, mas nas atitudes de organizações americanas de defesa de direitos dedicadas a colocar mais mulheres em conselhos de administração.

Sheila Ronning, CEO e fundadora da Women in the Boardroom, disse que as cotas poderiam criar uma percepção de contratações simbólicas quando, na realidade, há um vasto suprimento de mulheres qualificadas no meio empresarial americano. Em vez de batalhar por metas numéricas, sua organização trabalha para conectar mais de 15 mil clientes altamente qualificadas com empregos de alto escalão.

Clube dos 30%. Peter Grauer, presidente do conselho de administração da Bloomberg L. P., lidera o chamado Clube dos 30%, que promove globalmente uma melhor representação de mulheres nos conselhos de administração das 100 principais empresas do índice FTSE, listadas na Bolsa de Londres. Grauer quer ver uma maior porcentagem no país e no exterior - mas uma cota obrigatória, para ele, não é a maneira de fazer a coisa acontecer. "É importante que o tom seja dado pelo topo da organização."

Barb, que hoje é presidente da consultoria de administração Timmaron Group, compartilha a opinião. Cabe a organizações e companhias privadas - e não ao governo - incitar mudanças. Ela atuou em 19 conselho por duas décadas e atualmente participa de três. Como Ronning e Grauer, defende uma solução mais natural, ainda que mais lenta, da ajuda para mulheres construírem relações de negócios.

"Eu ainda sinto que existe o assento simbólico", disse Barb. "As diretorias são tocadas por homens, na sua maioria na faixa dos 60 anos... Você realmente precisa trabalhar duro para se conectar e trazer outras com backgrounds diferentes."

O progresso ainda tem sido lento. Nos EUA, mulheres detêm 19,2% dos assentos em diretorias das empresas listadas no índice Standard&Poor's, segundo o Catalyst, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para a promoção de mulheres nos negócios. Isso é pouca coisa acima dos 14,7% de 2005 e 9,6% de 1995.

É geralmente aceito que as cotas seriam o caminho mais rápido para mudar esses números. Após a Noruega ter implementado a política, o número de mulheres em diretorias de empresas públicas aumentou de 5% em 2000 para 40% em 2007. Além disso, vários estudos mostram que corporações com mais mulheres em seus conselhos tendem a ter um desempenho melhor.

O que as pesquisas ainda não mostraram, contudo, é se as cotas teriam um efeito propagador em algumas das manifestações mais profundas de desigualdade de gênero. A medida da Noruega não impulsionou matrículas femininas em escolas de administração de empresas, não reduziu significativamente a diferença de remuneração ou promoveu uma cultura no local de trabalho mais favorável à família.

Elas querem um assento à mesa e querem que o mundo saiba que esse assento foi merecidamente conquistado. /Tradução de Celso Paciornick

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