Ivo Transferetti/Fundação Bienal de São Paulo
Com a saída do executivo, banco de investimentos ainda não definiu sucessor. Ivo Transferetti/Fundação Bienal de São Paulo

Credit Suisse muda comando e reforça expectativa de venda de operação local

Após quase dez anos à frente da operação brasileira, executivo José Olympio Pereira vai deixar o cargo no fim de 2021; mercado especula possível repasse de negócios brasileiros no Brasil à XP, mas o banco suíço nega 

Cynthia Decloedt e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 14h24
Atualizado 27 de maio de 2021 | 11h35

O executivo José Olympio Pereira está de saída do banco de investimento Credit Suisse no Brasil. Ele está na instituição há 17 anos, sendo quase dez como presidente da operação nacional. A informação da mudança de comando foi confirmada nesta quarta-feira, 26, pelo banco suíço. O movimento reforça a expectativa de que o Credit Suisse poderia se desfazer da operação local para compensar prejuízos bilionários de sua matriz. 

No entanto, fontes disseram que a decisão seria pessoal e teria sido comunicada ao banco há algum tempo, no início do ano, e não estaria relacionada a rumores de venda da operação brasileira do banco de investimentos a um concorrente, como a XP. A corretora, conhecida por sua agressividade no mercado, teria sinalizado a intenção de ficar com a operação brasileira, caso ela seja realmente colocada à venda.

O fundador da XP, Guilherme Benchimol, não negou interesse, em conversa recente com jornalistas – apenas não quis comentar o assunto. A XP tem em seu time nomes fortes do mercado financeiro, como José Berenguer (ex-JP Morgan), atualmente à frente do banco de investimento na instituição.

No último fim de semana, o presidente global da instituição suíça, Thomas Gottstein, esteve no Brasil e, em palestra a funcionários, negou a venda. O vídeo da conversa deve ser postado no Instagram do banco nos próximos dias.

Uma das “provas” desse comprometimento com o País seria a recente negociação com o Modalmais, fechada no ano passado. O banco Credit Suisse firmou acordo para ficar com 35% das ações preferenciais do Modalmais, que continuará a ser controlado por seu fundador, Diniz Ferreira Baptista. O valor do acordo não foi revelado pelos bancos.

“Esta transação nos possibilitará melhorar a maneira como servimos nossos clientes digitalmente, enquanto ganhamos acesso a segmentos adicionais de clientes em um ambiente com altas taxas de crescimento”, disse Philipp Wehle, CEO da divisão de International Wealth Management do Credit Suisse, na época. 

Trajetória

Em 36 anos de carreira no mercado financeiro, José Olympio trabalhou 33 anos em instituições que hoje formam o Credit Suisse no Brasil, segundo nota do banco. O comunicado afirma que ele iniciou sua carreira no Banco de Investimentos Garantia, em 1985, e presidiu a subsidiária brasileira do banco Donaldson, Lufkin & Jenrette (DLJ), entre 1998 e 2001.

Em 2004, atuou como líder na área de banco de investimento e conduziu o Credit Suisse no Brasil à liderança do mercado brasileiro nesse segmento. Em 2012, assumiu o cargo de CEO do banco no País. “O Brasil é estratégico para o Credit Suisse e o banco está comprometido em continuar investindo neste mercado prioritário”, diz o Credit, na mesma nota.

José Olympio deve permanecer à frente da instituição até o fim do ano e vai auxiliar na busca de seu sucessor. Nesta tarefa, será auxiliado por Ilan Goldfajn, presidente do conselho. 

Tempos difíceis

Nas últimas semanas, o Credit Suisse foi afetado por trocas de comandos em várias partes do mundo – pelo menos dez diretores da operação americana comunicaram o desejo de sair de seus cargos na instituição suíça. 

Essa debandada está relacionada às perdas de US$ 5,5 bilhões, relacionadas às posições na Archegos Capital Management. A avaliação do mercado é de que o Credit demorou para perceber o mau negócio. Por conta dessas perdas e dos problemas de reputação associados a elas, o banco desligou diversos executivos. 

 O Credit Suisse nega que a operação no País esteja à venda.

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Conheça José Olympio Pereira, banqueiro com trajetória ligada à arte e à literatura

Executivo é um dos maiores colecionadores de arte do mundo e sua família fundou importantes editoras, como a José Olympio e a Sextante

Marcelo Mota, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 20h10

O anúncio da saída de José Olympio Pereira do Credit Suisse causou espanto no mercado financeiro. Isso porque sua trajetória se confunde com a história recente dos bancos de investimento no Brasil e, sobretudo, com a história do Credit no País. Presidente da instituição, ele se afasta até o fim deste ano, colocando um ponto final em uma experiência que permeia quase todas as grandes operações do mercado de capitais brasileiro nos últimos anos.

Mal havia deixado a faculdade de Engenharia Civil, cursada na PUC-Rio, e José Olympio já se juntava ao Garantia, um dos mais célebres bancos de investimentos da década de 80, ao lado do Pactual. Lá permaneceu por mais de uma década e, já no início dos anos 2000, comandou a área do Citi no Brasil, tida também como grande escola de banco de investimento por aqui.

Em seguida, se uniu ao Credit Suisse, que havia absorvido a estrutura do Garantia. Está no banco há 17 anos, dez dos quais no comando da operação brasileira. Com sua história tão entrelaçada à do banco suíço no Brasil, não é de admirar que o anúncio de sua saída da casa tenha alimentado durante o dia especulações a respeito de uma possível debandada do banco do País.

No entanto, o Credit Suisse se apressou em informar que José Olympio segue à frente da instituição até o fim deste ano. Também que, ao lado do presidente do conselho de administração do banco, Ilan Goldfajn, ajudará a escolher seu sucessor.

Mecenato

À beira de completar 60 anos, José Olympio não é figura notória somente no mercado financeiro. Ele e a esposa são relacionados por especialistas entre os 200 maiores colecionadores de arte do mundo, uma lista frequentada por nomes do porte do fundador da Amazon, Jeff Bezos

É também o atual presidente da Fundação Bienal de São Paulo e membro dos conselhos do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro e da Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre outras instituições de relevo no meio cultural, dentro e fora do Brasil.

O apreço por cultura vem de berço. Seu avô, José Olympio, foi fundador da editora homônima e um dos mais célebres editores brasileiros. Hoje, a editora faz parte do grupo Record, após negociação que o neto do fundador ajudou a conduzir. Seu pai, Geraldo Jordão Pereira, seguiu os passos do patriarca e fundou as editoras Sextante e Salamandra.

No campo da arte, é visto como um "incentivador apaixonado". Todo esse envolvimento, porém, não chega a ofuscar sua verve de banqueiro. "Não tenho notícia de que ele tenha perdido dinheiro algum dia com essa paixão", diz um profissional que atua nesse mercado.

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