Executivos conseguem ignorar o roteiro?

Consultora incentiva dança, risos e observações em ângulos diferentes, para evitar a ?resposta certa automática?

Janet Ra-Dupree, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2008 | 00h00

Os administradores que estão lutando para fomentar a criatividade freqüentemente usam a desgastada expressão "think outside the box" (algo como "pense além dos parâmetros usuais") para incentivar os funcionários a surgirem com algo que ninguém ainda pensou. Mas a atriz de teatro do improviso Patricia Ryan Madson tem uma idéia melhor: olhar dentro da caixa lançando um novo olhar sobre o que já está lá.Autora do livro Improv Wisdom: Don?t Prepare, Just Show up (A Sabedoria do Improviso: Não Prepare, Apenas Apresente), Patricia ajuda organizações a encontrarem formas de disputarem uns com os outros, numa brincadeira sem roteiro. Virar do avesso o processo de planejamento é parte da aprendizagem das melhores formas de "preparar, atirar, apontar"."Somos todos criadores, dadas as condições e as permissões para criar", diz ela. "Existem muitas culturas empresariais que dizem: ?Seja criativo, mas não cometa nenhum erro.? O improviso abre portas para fazer diferente."Em oficinas e seminários, os consultores de improviso põem executivos pomposos em ação, criando situações inéditas às quais eles devem reagir, encorajando-os a movimentar o corpo, pular, dizer coisas absurdas, bater palmas, cantar, brincar com brinquedos, sentar em mesas, arrastar-se pelo chão e ,no geral, oferecerem novos pontos de vista, que parecem malucos. A tensão se desvanece e novas idéias começam a fluir.Isso não quer dizer que todas as sessões empresariais de livre debate devem se transformar numa paródia de um show de comédia. Mas a abertura e o clima de brincadeira que caracterizam a atuação de improviso podem criar uma sensação de cooperação e afirmação incomum em locais de trabalho altamente competitivos. Quando um funcionário derruba a idéia de um outro para ajudar suas idéias a vencerem, conceitos nascentes que poderiam se desenvolver na forma de algo brilhante morrem no pé.Em vez disso, Patricia e outros consultores do teatro do improviso, incluindo uma equipe de Portland, Oregon, chamada On Your Feet, esperam criar o que ela chama de "cultura do sim". "Dizer sim parece algo implícito, mas é profundo", diz ela. Diante de idéias novas imediatamente se formam barreiras, o que leva a um clima de "não podemos fazer isso", continua. "A idéia de dizer sim desde o começo permite aos colegas de trabalho levarem em consideração coisas que descartariam."Patricia é professora de teatro em Stanford desde 1977. E seu interesse em usar o improviso para melhorar as empresas e a educação evoluiu aos poucos. Sendo alunos brilhantes, os estudantes de Stanford são muito bons em dar o que eles percebem como a resposta correta a uma questão, mas ficam hesitantes quando solicitados a formularem respostas originais.Com muita freqüência, a mente dos estudantes - sem falar na mente empresarial - está procurando se agarrar a uma fórmula que venha a proporcionar formas testadas e aprovadas de resolver problemas. Mas isso pode obstruir maneiras novas de analisar uma situação.Patricia descobriu que ensinar os alunos a responderem rapidamente àquilo que já está diante de seus olhos ajuda a liberar novas idéias."Certamente, isso é útil para os atores", observa ela. "Mas executivos e pessoas em transição procuram apoio para dizer sim à sua própria voz. Muitas vezes, os sistemas que instalamos para nos mantermos seguros estão nos afastando do nosso eu mais criativo."O pensamento de improviso pode abrir a porta para o que outros chamam de "acidentes felizes". Há muito exemplos disso. A molécula que se tornou o Viagra foi originalmente desenvolvida para tratar hipertensão e angina. Quando fracassou em tratar essas duas doenças, a Pfizer quase acabou com ela. Mas pesquisadores intrigados pelos efeitos colaterais da molécula conseguiram permissão para desenvolver o medicamento para disfunção erétil.

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