Executivos dão salto para carreira '.org'

Compensação financeira muitas vezes é deixada de lado pelas pessoas que decidem atuar no terceiro setor

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2010 | 00h00

Sacar o cartão de visitas da carteira e ter e-mail ".org" para mostrar - característica de um profissional do terceiro setor - não exige só o desejo de trabalhar em um projeto social ou educativo. É preciso que se esteja disposto a "zerar" a carreira e aprender um novo modo de trabalhar, tanto na busca de resultados quanto na expectativa de renda. Ao abandonar um emprego ".com" por um ".org", o profissional pode ter seu salário cortado a menos da metade.

Ainda que economicamente a equação não faça sentido, cresce o número de pessoas que tomam a decisão de trocar a compensação financeira por um projeto de vida, segundo Melissa Pimentel, consultora da DBM que trabalha com colocação no terceiro setor. Ela diz que o profissional que busca este tipo de mudança está cansado de perseguir resultados corporativos. "Muita gente vem com situação financeira confortável, mas tem um inconformismo, uma inquietação de fazer outra coisa com seus conhecimentos."

Migrar para o terceiro setor, afirma a consultora, não significa trabalhar menos. Pelo contrário: no início, é preciso dedicar mais horas por um salário menor ou até sem remuneração.

Depois de 27 anos na Itautec, o consultor William Alvares queria usar seus conhecimentos nas áreas de projetos e gestão para atender organizações voltadas a causas sociais. Mas deparou-se com uma dura realidade: na maioria dos casos, o orçamento dessas entidades é apertado. Ele optou por incluir o terceiro setor na consultoria que abriu há um ano como trabalho "pro bono" (sem vencimentos). Para sobreviver, o consultor revisa processos administrativos e de produção de uma empresa do setor mecânico. Por enquanto, diz ele, a atuação no terceiro setor traz satisfação pessoal. Dentro de três a cinco anos, à medida que o terceiro setor ganhar destaque, Alvares prevê que o portfólio da área também fará diferença na captação de outros trabalhos.

Microcrédito. No fim de 2009, o administrador Bernardo Faria deixou uma posição na área de produtos para pessoa física no Santander para montar um "negócio social" - queria usar a experiência do vencedor do Nobel da Paz Muhammad Yunus, de Bangladesh, para moldar um sistema de microcrédito para as classes D e E no País. No meio do caminho, foi convidado para coordenar um projeto em andamento - o CDI-Lan, uma proposta do Comitê para Democratização da Informática que visa a oferecer produtos de crédito e de educação à distância em lan houses do Brasil.

Segundo o administrador, 32 milhões de brasileiros atualmente acessam a web em lan houses. O objetivo é oferecer microcrédito, crédito consignado e microsseguros nesses espaços. Atualmente, além de desenvolver a formalização de 800 lan houses em associação com o Sebrae - serviço de apoio à pequena empresa -, o projeto também se prepara sua operação piloto em meados de junho, em dez unidades de São Paulo.

Hoje, Faria recebe o equivalente a um terço do que ganhava na iniciativa privada. O administrador diz considerar o projeto que desenvolve um "híbrido" de empresa e projeto social. "Estou no setor 2.5; sou um empreendedor social. Estou montando uma empresa, uma S.A. fechada, que vai sair da incubação da ONG dentro de dois ou três meses. Acho que dentro de seis meses o negócio vai decolar."

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