Executivos têm férias mais curtas e mais estressantes

Maioria dos executivos aproveita apenas 10 dias de descanso quando se afasta da empresa

Ana Paula Lacerda, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Na teoria, são dias de férias. Na prática, os executivos não param de checar e-mails, telefonar e se preocupar com o que acontece no ambiente de trabalho, mesmo quando estão longe do serviço. ''''A maioria dos executivos que tira 30 dias de férias leva 10 dias para se desligar completamente do trabalho'''', explica a presidente brasileira do International Stress Management Association (Isma-BR), Ana Maria Rossi. E, não bastasse isso, passam outros 10 dias pensando em seu retorno às atividades. ''''No final, de 30 dias, apenas 10 são realmente aproveitados como férias.''''Uma pesquisa do Isma-BR, realizada com executivos de São Paulo e de Porto Alegre, teve um resultado inesperado: 38% dos entrevistados apresentou algum grau de fobia de férias. ''''Um número muito alto de pessoas disse que a perspectiva de tirar férias era uma fonte imensa de stress'''', diz Ana Maria. O principal motivo que leva um executivo a encurtar - ou até evitar tirar férias - é a perspectiva de que decisões importantes podem ser tomadas na empresa durante o período de ausência. Essa razão foi apontada por 46% dos executivos que apresentaram sinais de fobia de férias.''''Infelizmente, ter esse tipo de preocupação é sinal de que o executivo não preparou sua equipe para tomar conta dos negócios durante suas férias. É uma falha séria para um gestor'''', diz a sócia-diretora da consultoria Career Center, Karin Parodi. ''''Ou então, a pessoa tem um ego muito grande para pensar que qualquer decisão precisa passar pelas suas mãos.''''Outros 32% apontaram como razão para se estressarem com as férias a possibilidade de mudanças de cargo ou até demissão por causa de fusões e enxugamentos. ''''Apesar de haver empresas que demitem seus funcionários nas férias, certamente não são as férias a causa da demissão, e sim seu comportamento e seus resultados prévios'''', diz Karin. O medo ocorre porque a recolocação de um executivo é mais difícil que a de um operário, por exemplo. ''''Há muito menos vagas no mercado.'''' A fobia de férias é maior entre cargos de diretoria do que entre cargos de nível operacional.Por ser a opção prevista na legislação, a maioria dos executivos brasileiros opta por tirar 30 dias de férias. ''''Porém, um pouco menos da metade opta por ''''vender'''' 20 dias'''', diz Ana Maria, do Isma-BR. ''''Essa prática, no entanto, só deveria ser utilizada caso a pessoa precisasse do auxílio financeiro.'''' Ela acredita que a melhor opção é tirar férias mais vezes, por períodos mais curtos. ''''Três períodos de dez dias seriam o ideal para o bem-estar do executivo.''''AÇÕESNo Grupo Algar, que atua em telecomunicações, turismo, agronegócios e infra-estrutura, a preocupação com prevenção de stress é constante.''''Temos um grupo multidisciplinar para prevenir o stress e manter a saúde integral dos executivos, seja física, mental ou emocional'''', explica a coordenadora de processos de desenvolvimento individual do grupo, Cida Cruvinel. ''''Já percebemos a existência do stress pré-férias e tentamos mostrar às pessoas que esse descanso é necessário. Não só nos 30 dias da lei, mas também um pouco de descanso a cada dia.''''Os danos causados pelo stress chegam a 3,5% do PIB brasileiro - cerca de R$ 33 bilhões ao ano em tratamentos e perda de produtividade. ''''Uma das maneiras de reduzir esses custos é criar canais de comunicação entre funcionários e empresa, para que as pessoas não sofram com rádio-peão ou falta de feedback'''', diz Ana Maria, do Isma-BR.Na Avon, por exemplo, existe um canal em que os executivos e demais funcionários podem tirar dúvidas, fazer sugestões e até denúncias de atitudes que consideraram inadequadas. ''''A saúde do executivo, física e emocional, está muito ligada à sua carreira. Quando uma vai mal, a outra afunda junto. Por isso, as empresas têm de investir em bem-estar'''', diz a coordenadora de responsabilidade social da Avon, Elza Maio.FRASESKarin ParodiDiretora da Career Center"Certamente não são as férias que causam uma demissão, e sim o comportamento e os resultados prévios do executivo"Elza MaioCoordenadora de responsabilidade social da Avon"A saúde do executivo está ligada à sua carreira. Quando uma vai mal, a outra afunda junto"

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