''Existe preocupação com o risco de superaquecimento''

Dirigente do FMI reconhece o bom desempenho da economia brasileira no enfrentamento da crise, mas vê o crescimento acelerado com apreensão

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, juntou-se ao coro dos economistas preocupados com o superaquecimento da economia brasileira. Em entrevista exclusiva ao Estado, desdobrou-se em elogios à condução da economia do País durante a crise. "É impressionante ver como o Brasil conseguiu lidar com a crise mundial e ser tão pouco afetado por ela."

Mas, prestes a desembarcar no Brasil para uma série de reuniões, em Brasília e em São Paulo, o diretor-gerente do Fundo admite certa apreensão. "O superaquecimento é uma preocupação, as metas de inflação, outra medida de temperatura, o excesso de fluxos de capitais - todas essas são preocupações."

Strauss-Kahn ressaltou o papel do Brasil na consolidação do G-20 como principal foro econômico multilateral. Mas adverte que o G-20 precisa de apoio para se manter vivo e não cair na irrelevância do G-7. Ele faz um alerta ao Brasil, que reluta em aceitar o imposto sobre bancos desenhado pelo FMI a pedido de vários países, para lidar com crises futuras: "A não ser que um país seja imune a qualquer crise financeira para o resto da vida, há boas razões para adotar esse imposto".

O diretor-gerente do FMI chega ao Brasil na terça-feira, participa de um seminário em São Paulo e depois se reúne em Brasília com o presidente Lula, o ministro Guido Mantega e outras autoridades. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Considerando os últimos acontecimentos na Europa, hoje em dia o perigo de uma recessão em duplo mergulho é maior ou menor?

Duplo mergulho não é nosso cenário mais provável, embora haja um risco marginal de isso ocorrer, desencadeado por alguns problemas: fluxos de capitais excessivos criando bolhas, dívidas soberanas que preocupam, mas ainda parecem estar sob controle, colapsos de grandes instituições financeiras. Mas nós ainda trabalhamos com um cenário de uma recuperação acontecendo de forma mais rápida e antes do que se esperava. Certamente os acontecimentos da Europa terão impacto no crescimento mundial, mas acredito que seja limitado.

Os Estados Unidos estão indo melhor do que se esperava?

Sim, mas a situação na Europa está ruim e, se o efeito sobre o euro persistir, pode acabar afetando as exportações dos Estados Unidos, enquanto aumenta o crescimento europeu... São efeitos complexos.

Uma grande preocupação entre economistas no Brasil é o perigo de a economia brasileira superaquecer. O sr. compartilha dessa preocupação?

A economia brasileira foi muito bem nesses últimos anos, apoiada em uma década de esforços. Isso se deve em parte ao fato de as instituições financeiras no Brasil não terem se envolvido muito nos produtos que originaram a crise, mas também porque as políticas econômicas criaram os fundamentos para o crescimento. Existe uma preocupação hoje de evitar que a economia vá muito rápido, com risco de superaquecimento. Eu não acho que seja um risco grande, mas certamente precisamos prestar atenção e manter sob controle. Os diferentes instrumentos que temos para evitar o superaquecimento, incluindo política monetária, precisam ser autônomos e independentes, e não enfraquecidos pelo fato de o País ter outra preocupação, os fluxos de capital.

Como se conciliam essas duas coisas, lidar com excesso de fluxos de capital e necessidade de desaquecer a economia?

É muito difícil. Ter grandes fluxos de capital em um mercado emergente é natural e bem-vindo, mas pode se tornar exagerado e ai temos esse conflito de usar os mesmos instrumentos para dois objetivos diferentes. É por isso que entendo que, depois de usar todos os instrumentos tradicionais para limitar fluxos, aí se usa algum tipo de controle de capital, de maneira apenas temporária, como o Brasil fez.

Como o sr. avalia a eficiência do controle de capitais usado no Brasil?

Eu entendo o motivo que faz o governo adotar os controles de capital, mas os exemplos de eficácia não têm sido muito convincentes. O Fundo mesmo orientou a Islândia a adotar controles de capital - mas foram para evitar a saída. E foram eficientes. No Brasil, é difícil medir, precisamos de algum distanciamento para medir.

Voltando ao tema do superaquecimento, o governo acaba de anunciar cortes de gastos. Esses cortes são suficientes, terá de ser feito mais no front monetário também, além do fiscal?

O negócio é usar um pouco de cada instrumento, monetário e fiscal, em vez de se focar apenas em um. Isso é o que o governo brasileiro está fazendo. Ter a política monetária certa, mas ao mesmo tempo atuar no lado fiscal, é melhor do que fazer tudo do lado fiscal ou monetário.

Quão difícil é cortar gastos em ano de eleição?

Obviamente é difícil. Mas é melhor cortar gastos em ano de eleição do que deixar o próximo presidente com um problema que não foi resolvido.

O sr. vê algo na economia brasileira que merece mais atenção?

Várias questões merecem atenção. O superaquecimento é uma preocupação, as metas de inflação, outra medida de temperatura, o excesso de fluxos de capitais - todas essas são preocupações. Mas, quando comparo a economia brasileira com outras no mundo, a situação é bastante boa.

No ano passado, na reunião do FMI em Istambul, o Fundo afirmou que os emergentes deveriam reduzir a acumulação de reservas e usar o Fundo como uma espécie de "acumulador oficial" de reservas. O sr. ainda tem essa visão?

Sim, eu acho que essa é a visão certa, embora eu entenda que por motivos de soberania os países queiram acumular as próprias reservas. Todo mundo se sente mais seguro tendo uma arma em casa do que confiando na polícia na rua. No entanto, a civilização caminha para o sentido de ter polícia na rua e não ter arma em casa. Então eu acredito que, no futuro, o certo é os países acumularem menos reservas e se apoiarem em reservas multilaterais em tempos de crise. Mas, para desempenhar esse papel, instituições como o FMI precisam ser vistas como legítimas, e isso nos leva a outras questões, de representatividade, de reforma das cotas do Fundo.

O ministro Guido Mantega propôs, na reunião dos ministros de Finanças do G-20 em Washington, em abril, que a reforma das cotas do Fundo seja antecipada e ocorra antes de janeiro de 2011. Isso é factível?

Eu acho que o ministro Mantega está correto ao querer que essa reforma se dê antes. Mas, enquanto os funcionários do Fundo estão prontos para agir, em última instância essa reforma depende dos membros do Fundo, incluindo o Brasil. Nós tentamos fazer o mais rápido possível, mas as reuniões se repetem e se repetem, porque os membros não chegam a um acordo.

O que mais o Brasil poderia fazer para acelerar o processo?

O Brasil está entre os países cuja cota vai aumentar. Mas o problema é quando chegamos aos detalhes técnicos. Podemos argumentar por horas que determinada fórmula de calcular as cotas seria mais justa, ou que outra maneira seria melhor, e isso pode levar meses. Portanto, se a ideia é fazer a reforma mais rapidamente, é melhor mudar logo, da forma possível, em vez de ficar tentando chegar à fórmula ideal. A ideia é refletir o peso econômico de cada país, mas como se determina o peso econômico? É o PIB, em paridade de poder de compra, ou em valor nominal. Mas algum produtor de petróleo pode argumentar que sua importância é grande, já que ele fornece o petróleo... Meu ponto é: é melhor não discutir tanto. Temos uma fórmula com a qual concordamos dois anos atrás, é melhor mantê-la, ainda que não seja perfeita, para fazer a mudança o mais rápido possível, como propõe o ministro Mantega.

Que mensagem o sr. vai levar ao presidente Lula?

Vou dizer ao presidente Lula que o Brasil foi essencial para construir o G-20, esse novo foro multilateral que é um dos grandes legados desta crise. Nós conseguimos superar parte da crise por causa no nível de cooperação sem precedentes entre os grandes países no G-20. O Brasil tem sido um ator muito importante no G-20, mas se queremos que o G-20 continue sendo um foro importante e não queremos que a coordenação política desapareça juntamente com a crise, é preciso apoio de todos os grandes atores.

Apoio em que sentido?

Apoio para manter o G-20 vivo. O que matou o G-7 não foi apenas sua falta de representatividade, mas o fato de se tornar um ajuntamento agradável, sem agenda real, em que não se tomavam decisões, apenas se faziam declarações. Precisamos manter o G-20 como um órgão de tomada de decisões.

O G-20 estava estudando a adoção de uma taxa sobre instituições financeiras para evitar futuras crises e lidar com elas, quando voltarem a acontecer. O FMI foi escalado para ajudar a desenhar esse imposto. Mas o Brasil, por exemplo, acha que alguns países não deveriam ter de pagar esse imposto.

Os países podem decidir adotar ou não esse imposto, mas isso tem de ser feito de maneira coerente, é preciso haver coordenação, e o G-20 é um bom lugar para isso.

O sr. acha que essa taxa sobre os bancos seria benéfica para o mundo?

Sim, acho que muitos países têm razões para implementar essa taxa. Países cujos sistemas financeiros foram afetados na crise estão dispostos a adotar o imposto, enquanto países cujos sistemas financeiros não foram prejudicados dizem que não precisam do imposto. Como se eles estivessem imunes a crises bancárias para sempre.

Se alguém perguntar ao sr. qual a diferença desta segunda fase da crise, em comparação com a primeira, o que o sr. diria...

Eu não sei se estamos na segunda fase. Acho que já estamos na terceira ou quarta. A primeira fase foi a crise financeira que se originou no mercado imobiliário dos Estados Unidos, e que contagiou instituições financeiras ao redor do mundo. A segunda fase foi a desaceleração econômica que afetou a economia real. Nós estamos na terceira fase, em que países estão com problemas de endividamento e a recessão causou enormes aumentos nas relações dívida-PIB de muitas nações. A Grécia é um exemplo, mas há muitos outros. E também teremos uma quarta fase: apesar de o crescimento estar voltando, o desemprego ainda está subindo em muitos países, especialmente nas economias avançadas. Então temos crise financeira, crise econômica e agora crise social.

O FMI se tornou mais relevante durante sua gestão. Por quê?

A resposta óbvia é porque houve uma crise. Nós somos bombeiros - as pessoas acham que somos úteis quando há um incêndio. Quando não há fogo, se esquecem de nós.

Mas houve crises antes. Vocês hoje são bombeiros diferentes do que eram durante a crise da Ásia, por exemplo. Como é que vocês vão evitar os erros cometidos na crise da Ásia ao receitar medidas de austeridade para a Grécia, por exemplo?

Nós aprendemos com os erros e acertos do passado. A primeira diferença é que não adotamos mais a ideia de que há uma fórmula única para todos os problemas. A ideia é levar em conta as especificidades de cada país e adaptar. A segunda coisa é que, no passado, o Fundo tinha essa ideia de que, se estávamos ajudando um país a lidar com uma crise, seria uma boa oportunidade para resolver todos os problemas. Em uma das primeiras reuniões que tive no Fundo, eu disse: vocês estão aqui para resolver problemas, não para consertar o mundo. Não vão dizer a um país para consertar tudo o que está errado. Vamos nos focar no problema de hoje, principalmente questões macroeconômicas, e não estruturais.

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