''Existe risco de nova crise nos EUA''

Entrevista - Barry Eichengreen: professor de Economia e Ciência Política na Universidade da Califórnia, em Berkeley; para economista, os EUA têm de manter os estímulos à economia, mas não têm como lançar novos pacotes de ajuda

Luciana Xavier, AGÊNCIA ESTADO, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

O economista americano Barry Eichengreen afirmou ontem que os mercados podem estar exagerando no otimismo em relação à recuperação dos Estados Unidos e que o risco de um novo mergulho na recessão não pode ser descartado. Considerado um dos mais proeminentes economistas da atualidade, Eichengreen é professor de Economia e Ciência Política na Universidade da Califórnia, em Berkeley, pesquisador do National Bureau of Economic Research (NBER) e foi consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em entrevista por telefone ao AE Broadcast Ao Vivo, da Agência Estado, o economista lamentou que o presidente Barack Obama tenha priorizado uma reforma no sistema de saúde do país e não uma reforma financeira, que poderia proteger melhor a economia de novas crises. Para ele, está claro que o Brasil conseguiu aprender com crises anteriores, mas tem dúvidas sobre se os EUA e a Europa conseguirão aprender com a crise atual.

O sr. compartilha do otimismo dos mercados com relação à recuperação dos Estados Unidos?

Temo que o mercado esteja se precipitando. Há sinais de que a economia dos EUA esteja se estabilizando. A produção em vários setores tem crescido e as vendas de imóveis novos e usados têm aumentado. Mas preocupo-me com duas coisas. Primeiro, com os gastos no varejo. Se o consumidor não voltar a gastar, toda a produção adicional que ocorre no momento vai para estoques e as empresas terão de fazer novamente cortes na produção. Em segundo lugar, estou preocupado com o mercado imobiliário. Há um subsídio para os que vão comprar casa pela primeira vez, que expira em novembro, e as vendas de casas podem cair de novo. Esses são dois elementos que podem provocar um duplo mergulho na recessão. Não estou fazendo uma previsão, mas estou preocupado.

Não temos visto recentemente grandes instituições financeiras com tantos problemas como os que vimos nos piores momentos da crise. Mas muitos pequenos bancos nos EUA ainda estão falindo. Como está a saúde do sistema bancário?

Estou preocupado que não sejam apenas os pequenos bancos, mas talvez alguns dos grandes bancos que estejam pouco capitalizados. Lembre-se de que nos testes de estresse foi exigido que os bancos levantassem apenas US$ 75 bilhões em capital, enquanto o FMI e outros observadores imparciais sugeriram US$ 250 bilhões. Então, há razões para se preocupar com mais defaults não apenas nos empréstimos para casas, mas em imóveis comerciais e cartões de crédito. Mais problemas no setor bancário podem estar a caminho.

O que resta ser feito para evitar um duplo mergulho na recessão?

Acho que o Fed, o Congresso e a administração Obama já se deram conta que não há muito mais a ser feito nesse estágio. Não há mais apoio público para um segundo estímulo fiscal. Nós, como economistas, podemos dizer se seria boa ou má ideia, mas não acho que (outro estímulo fiscal) vai acontecer. Tudo o que podemos fazer a partir de agora é não sair muito rapidamente das políticas de estímulo. É importante que o Fed não comece a subir os juros muito cedo. Talvez se tivermos alguma ajuda do resto do mundo - crescimento forte da China, Índia, Rússia e Brasil -, isso ajudaria os EUA também.

O sr. acha que o dólar vai perder mais seu valor?

Venho prevendo a fraqueza do dólar há mais de cinco anos e continuo prevendo isso. Acho que todos os fundamentos apontam para um dólar mais fraco. Agora que o consumidor americano está gastando menos, os EUA têm de exportar mais e um dólar mais fraco ajuda a tornar isso possível. Agora que está transbordando todo esse déficit do governo, alguém vai ter de comprar isso e um dólar mais fraco é parte do que o torna possível. Acho que um dólar fraco é uma das cartas que estão na mesa. Porém, o dólar está mais fraco, principalmente, em relação às moedas dos países emergentes e não tanto ante o euro. Isso porque os países europeus têm todos os mesmos problemas que os EUA.

A Organização das Nações Unidas (ONU) defende uma moeda global no lugar do dólar. O sr. enxerga essa necessidade?

A ideia de uma moeda global é de que haveria mais disciplina em países como os EUA, que conseguiram ter déficits externos tão grandes porque têm o privilégio exorbitante de ser um fornecedor de reservas para outros países. A ideia de uma moeda global é eliminar esse privilégio. Mas não acho que vá acontecer porque isso exigiria de alguma entidade, como as Nações Unidas ou o FMI, distribuir essa moeda na quantidade que os mercados internacionais necessitam. Se for exigido delas agir como um banco central, acho que não há chance de se realizar tão cedo.

O sr. vê a possibilidade de moedas como o yuan e o real fazendo parte da cesta de moedas internacionais junto com dólar, euro e libra?

Sim, acho que isso é possível. Mas não sei quando. Acho que os chineses estão seriamente empenhados em fazer da moeda deles uma moeda internacional. E sei que a Rússia e o Brasil têm falado sobre a mesma coisa. Mas chegar lá será um longo e trabalhoso processo. Vai levar de 10 a 20 anos para se construírem mercados financeiros profundos e com a liquidez que tem de existir para fazer com que a moeda de um país seja atraente aos estrangeiros. Será preciso fazer de Xangai e São Paulo centros financeiros comparáveis aos de Nova York e Londres.

O Brasil foi menos atingido por esta crise, ao contrário de outras crises. O sr. acha que os países desenvolvidos têm uma lição a aprender?

Não há dúvida de que os emergentes aprenderam com crises anteriores. Aprenderam sobre a importância de um câmbio flexível, de uma disciplina fiscal e de sistemas bancários mais fortes. Os EUA e a Europa vão aprender a mesma coisa? Bem, temos que ter esperança que sim. Sabemos quais são as lições, mas, se teremos habilidade política para agir guiados por elas, é outra história.

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