'Existe uma decepção com o crescimento'

Para economista, resultado do IBC-Br reforça a tendência de desaceleração da economia

Entrevista com

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 02h04

O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, diz que o resultado ruim apontado pelo IBC-Br, somado ao fraco desempenho da indústria e do varejo, apontou uma tendência de desaceleração no último trimestre de 2013. "É uma pena, porque também se consolida uma expectativa para 2014 muito mais cautelosa", diz o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, colunista do Estado. "O efeito do IBC-Br, da indústria e do comércio mostrou um enfraquecimento no fim do ano passado, que aponta para outro enfraquecimento em 2014". A seguir, principais trechos da entrevista.

Como o sr. analisou o resultado do IBC-Br? É possível falar em recessão?

Foi muito fraco. Nesse sentido, o que tem de relevante é que ele vai na mesma direção do desempenho da indústria e do comércio. O que o resultado demonstrou, sem dúvida nenhuma, é que o fim de 2013 foi bem fraco. Do ponto de vista de recessão técnica, se fala com base no PIB (Produto Interno Bruto); não temos o número do PIB ainda e, talvez, não seja apropriado falar disso. Mas é possível falar de um enfraquecimento grande. Nós revisamos a nossa expectativa de PIB do último trimestre para 0,2%. Para o ano, a nossa estimativa é de 2,1% - estava em 2,3%. O resultado mais relevante é a confirmação de uma desaceleração no último trimestre.

Quais as consequências desse menor crescimento?

O chamado efeito arrasto é muito baixo para 2014. Não tem nenhum efeito positivo estatístico do resultado do ano passado sobre este ano. O que nos preocupa é essa combinação de enfraquecimento com a percepção de que o ano também começou fraco. Todos os dados recentes que estão saindo mostram que esse enfraquecimento do último trimestre de 2013 continua neste ano. E aí tem uma explicação e reforça a ideia que está na maior parte da cabeça dos analistas - que 2014 vai ter um crescimento menor do que 2013. Para este ano, estamos prevendo um crescimento de 1,6%; antes tínhamos 1,9%, mas essa redução foi feita antes da divulgação do IBC-Br.

O sr. ficou surpreso com a quantidade de resultados ruins divulgados nos últimos dias?

Me surpreendeu, porque foi mais forte do que eu imaginava. É uma pena porque também se consolida uma expectativa para 2014 muito mais cautelosa. O efeito do IBC-Br, da indústria e do comércio mostrou um enfraquecimento no fim do ano passado, que aponta para outro enfraquecimento em 2014. Além disso, no começo do ano houve um choque exógeno, de oferta, que é o efeito da seca na agricultura. A safra vai ser boa, mas não vai ser aquela maravilha de 195 milhões de toneladas. Deve ser um número inferior a 190 milhões de toneladas. O número ainda é muito bom, mas a contribuição para o PIB também será menor. Mas esse cenário foi inesperado: quem poderia imaginar um verão tão quente e seco?

Diante dessa leitura, qual a avaliação em relação a 2014?

Estamos caminhando para o fim do primeiro bimestre com todas as indicações de que a economia está devagar. A exportação está sentindo, tem a crise da Argentina, claro. O juro ainda vai subir mais um pouco, o que é necessário por causa da inflação, mas isso não ajuda o crescimento. Tem uma crise nos países emergentes que nos atrapalha. Eu não sei também o que vai acontecer com a energia elétrica, mas o custo aumentou, o que também atrapalha, por causa do encarecimento desse insumo. Algumas empresas estão pensando em vender energia elétrica no mercado livre. Se isso acontecer, o fluxo de caixa da companhia é beneficiado, mas o efeito no PIB é negativo. Olhando por todos os lados, o fim do ano passado foi fraco, o que aponta para um primeiro trimestre fraco. Não é recessão, não é nada disso. Mas eu não acho pessimismo dizer que este ano vamos crescer menos do que no ano passado. E aí se consolidam quatro anos crescendo em torno de 2%, o que é muito fraco.

O mau humor que se percebia no mercado financeiro chegou à economia real diante desses resultados ruins?

Existe uma decepção com o crescimento que vem desde o segundo trimestre do ano passado. Por isso, para mim, é fácil de entender essa desaceleração. Se você analisar o gráfico do IBC-Br, ele embica para baixo depois de julho. A nossa percepção é que a maior parte das empresas, em meados do ano passado, se convenceu de que o crescimento seria fraco. E o que a maioria das companhias tentou fazer foi defender as margens. Isso significa não dar desconto de preços, garantir margens boas - já que o volume seria menor - e, assim, ter um balanço melhor. Existe uma mistura de decepção e mau humor no setor real. Mas claro que sempre há setores e empresas específicos que estão se dando bem. O PIB é a média, mas a média está enfraquecendo. E tem mais gente enfraquecendo do que acelerando.

Como se reverte esse quadro?

A situação da economia mundial, a piora na inflação e o receio de redução de rating estão levando o governo a ter uma política macroeconômica claramente mais restritiva. O juro está subindo e vai ser anunciado um corte fiscal. Do ponto de vista macroeconômico, a mensagem que sai é contracionista, não é expansionista. Eu acho que, antes de tudo, a tarefa do governo seria resgatar um pouco de confiança. A queixa mais comum em todos os setores é a mudança de regra, e isso é que vai contaminando.

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