Existe uma desaceleração na economia brasileira?

Em nosso último encontro, há duas semanas, argumentamos que do exterior não virá nenhuma tendência deflacionária, ao contrário do que vêm colocando as autoridades do Banco Central. Neste período é certo que os dados da economia americana continuaram revelando uma fragilidade na recuperação econômica, mas continuamos longe de um risco deflacionário de fato. Ao mesmo tempo, o crescimento do norte da Europa segue surpreendendo para melhor: o crescimento da zona do euro (de 1% no segundo trimestre), puxado pela Alemanha, foi significativo. Já há quem projete uma elevação de 3.5% no PIB alemão deste ano.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Na área de commodities o Departamento de Agricultura americano divulgou no dia 12 sua estimativa mensal para a safra local; como o clima, embora apresente riscos até o início de setembro, segue favorável, espera-se uma safra recorde para a soja e para o milho. Entretanto, a demanda asiática está tão forte que as cotações não recuaram, como seria de se esperar. Ao lado da demanda, estamos assistindo a alguns choques de oferta pelo mundo. A seca na Europa continua e é particularmente devastadora na Rússia, reduzindo tanto a oferta de alimentos domésticos, como a batata e a beterraba, tanto quanto a safra de grãos, o que levou as autoridades a proibir as exportações (de trigo, farinha, cevada, centeio e milho) até dezembro. Em situação oposta vive parte da Ásia, onde o excesso de chuvas vem provocando grandes inundações, especialmente no Paquistão, com prejuízo para a produção de arroz, cana e algodão. O resultado tem sido uma forte elevação das cotações agrícolas (mais 15% no açúcar, 12% no trigo, 9% no algodão e arroz, 6% no café e no milho e 2% na soja no mês encerrado em 18 de agosto), mesmo após a melhor notícia da temporada, que foi a estimativa da safra americana. Lembremo-nos que o La Niña traz normalmente riscos climáticos para a safra latino-americana, na forma de seca no fim do ano. O movimento dos preços de commodities colocou o índice de termos de troca brasileiro no maior patamar desde junho de 2000.

Pode-se argumentar que, independentemente do exterior, existem indicações de desaceleração na economia brasileira. Isso é verdade. A mais óbvia é a forte queda na inflação cheia, que veio a zero, e a mais suave no núcleo, que evoluiu 0,35 e 0,23% em junho e julho. Além disso, em alguns setores existem evidências de acumulação de estoques, como no aço e automóveis. Os dados da Fenabrave mostram que os estoques na rede de revendedores subiram de 18 dias de venda em maio para 22 em junho e julho e 26 em agosto. Entretanto, os dados disponíveis revelam queda em agosto, para 24 dias. No caso do aço, os estoques dos distribuidores subiram de 2,1 meses de venda em março para 3,6 em junho. Ao mesmo tempo, a média mensal de importações de aço subiu de 194 mil toneladas em 2009 para 455 entre março e junho do corrente ano.

Entretanto, o segundo trimestre foi realmente atípico, com certa antecipação de demanda ante o fim de incentivos fiscais para bens duráveis e culminando com a Copa do Mundo, durante a qual tivemos cinco feriados não oficiais, o que certamente afetou a atividade no período. Ao mesmo tempo, as importações explodiram no período recente, tendo crescido, em quantidade, 45% em junho deste ano ante o mesmo período do ano passado. Essa história é fácil de entender: o crescimento explosivo do primeiro trimestre do ano levou a uma enorme ampliação de pedidos da indústria, especialmente no exterior. Como as entregas levam um certo tempo para se materializar, houve um congestionamento, que resultou em elevação temporária de estoques no fim do semestre, como no caso do aço.

No caso do aço, além de uma questão conjuntural, existe uma questão estrutural. Tradicionalmente, o setor de aço no mundo era muito fragmentado e as empresas enfrentavam uma situação peculiar, pois compravam insumos (minérios e carvão) de poucos players e vendiam parte expressiva da produção para um número reduzido de montadoras de veículos. Isso levou a uma forte consolidação das aciarias nos últimos anos, seguida de uma tentativa de integração vertical, pelo menos parcial. As recentes aquisições de mineradoras pela indústria ilustram o fenômeno.

Por outro lado, os preços de aço brasileiro sempre foram maiores que os preços internacionais, o que levou as montadoras locais a uma decisão estratégica, qual seja, de importar pelo menos 20% do aço que utilizam, para contestar os preços locais. Os movimentos conjunturais e estruturais explicam a alta das importações e a acumulação temporária de estoques. Estoques excessivos tiveram de ser reduzidos e os preços foram flexibilizados.

Nessas condições, a questão fundamental é saber se existe ou não uma redução permanente da demanda interna ou se o que está acontecendo é um fenômeno de curto prazo associado a uma elevação substancial das importações, sem a pressão deflacionária vinda do exterior. É isso que vai decidir qual será a tendência da inflação para 2010/2011.

Não tenho a menor dúvida que a demanda vai continuar muito forte, simplesmente porque todos os seus componentes estão em expansão: as exportações estão crescendo bem. O consumo aparente de máquinas está crescendo forte, devido tanto a expansão da produção doméstica como das importações. Na mesma direção, a construção civil está "bombando": os resultados (dados da Abecip) do primeiro semestre revelam um número recorde de financiamentos habitacionais. O gasto governamental, típico de anos de eleições, está elevadíssimo e finalmente tudo conspira para um crescimento muito forte do consumo. De fato, a taxa de desemprego atual (7% em junho) é bastante baixa, revelando um volume muito bom de contratações. Na verdade, a disputa por mão de obra segue sendo feroz e é crescente o número de trabalhadores do setor privado que mudam frequentemente de emprego para obter salários cada vez mais elevados. No setor público, o governo federal concedeu substanciais reajustes ao funcionalismo, bem como o Judiciário e o Legislativo. Tudo somado leva a uma projeção de elevação da folha real de salários da ordem de 6,5% para o ano corrente. Com o mercado de trabalho aquecido, os dissídios coletivos do segundo semestre deverão resultar em aumentos generosos de salários. Numa conversa com José Pastore (provavelmente o melhor especialista no mercado de trabalho do Brasil), ouvi sua expectativa de elevações que incluam o INPC mais 5%, em média. Complementa o quadro uma expansão forte do crédito ao consumidor em todas as formas, num contexto de redução sistemática da inadimplência. Finalmente, o crédito às empresas também cresce, especialmente no segmento de pequenas e médias.

A demanda final, pública e privada, de consumo e investimento nunca mostrou sinais consistentes de desaceleração, apenas flutuações temporárias e fortuitas, como as decorrentes da Copa do Mundo. Mais que isso, a demanda final anda muito acima da taxa de expansão sustentada do produto, o que pressiona os preços, a menos de uma improvável explosão gigantesca das importações.

Mantemos nossa previsão de crescimento de 7% do PIB para este ano, feita há meses atrás. Apenas os mais entusiasmados, que trabalhavam com números superiores a 8% estão revendo suas estimativas. É útil também lembrar que, quando se projeta 7% para o ano, é óbvio que o crescimento próximo a dois dígitos do primeiro trimestre teria que cair. Mas isso não é desaceleração, mas apenas o ajuste de um ponto fora da curva.

Continua muito difícil entender o argumento do Banco Central.

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