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Existe uma forma sustentável de avançar?

A corrupção política em anos de aparente abundância não mais será aceita

Albert Fishlow, O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2018 | 05h00

Uma nova onda de otimismo econômico surgiu nos Estados Unidos e no Brasil no início de 2018.

As taxas de crescimento esperadas para o ano foram revisadas substancialmente para cima. Atualmente, uma expansão de até 4% é considerada viável nos dois países.

Os mercados de ações alcançam níveis recorde de alta em ambos os países. A inflação diminuiu acentuadamente no Brasil; nos Estados Unidos, continua bastante baixa, apesar das taxas de desemprego que se aproximam de níveis mínimos. A balança comercial em ambos os casos permanece sob controle. Os contínuos déficits fiscais parecem não importar.

Já a política, de sua parte, tornou-se cada vez mais conflituosa.

Nos Estados Unidos, a questão da paralisação do governo por falta de orçamento era uma ameaça e se tornou real. Ocorreram discussões sobre a possibilidade de retardar por uma semana em vez de um mês. Desta vez, uma mera maioria no Senado não é suficiente, como foi o caso da redução de impostos pelos republicanos. Implicitamente, isso tudo é sobre a eleição de uma nova Câmara e Senado em novembro. Os democratas esperam recuperar a maioria na Câmara e limitar perdas no Senado.

No Brasil, a atenção se concentra na revisão da Previdência Social. A maioria concorda que alguma mudança é necessária. O privilégio dos funcionários públicos no sistema nunca foi adequadamente tratado, nem o problema demográfico, uma vez que há uma população idosa vivendo cada vez mais. Os déficits futuros progressivamente sairão fora de controle. Em vez do Senado, aqui é a Câmara que está vacilante. As próximas eleições em outubro, de novo, são um fator determinante.

Existe uma característica política compartilhada adicional. Tanto o presidente Trump como o presidente Temer são bastante impopulares.

Quanto a Trump, pode-se citar uma grande variedade de causas que vão do desrespeito fundamental a qualquer pessoa que não seja branca, para a rentabilidade pessoal de sua presidência que emana de seus hotéis. Isentar a Flórida da autorização para explorar petróleo offshore possivelmente tem menos a ver com a corrida do governador ao Senado do que com o elaborado resort de Mar al Lago de Trump, perto da costa. Mesmo o seu recente exame físico – do qual ele emergiu com aparente sucesso completo – criou polêmica. Cardiologistas proeminentes questionaram seus níveis muito elevados de colesterol como fonte de preocupação.

Para Temer, cujas pesquisas populares têm índices muito piores, há uma falta total de reforma política. Ele pareceu incapaz de conciliar sua longa liderança no MDB com algum esforço sério para alterar as regras eleitorais. Ele apoia os limites constitucionais das despesas impostas por seus ministros da área econômica, ao mesmo tempo que coloca recursos à disposição dos membros do Congresso sempre que necessário. Pode haver novamente “restos a pagar” como preocupação no fim do ano.

Nenhum dos dois consegue entender as mudanças fundamentais desencadeadas em suas sociedades, mudanças que não desaparecerão.

No caso dos Estados Unidos, houve um avanço impressionante em igualdade racial e de gênero nos últimos anos. A eleição de Obama é um marco. Assim como o aumento contínuo da presença asiática, latino-americana, africana e do Oriente Médio no país. Não há como desfazer essa realidade. Assim como o aumento do papel das mulheres. Elas já não temem falar contra o comportamento masculino inadequado. Não mais aceitam receber salários mais baixos para os mesmos empregos.

No Brasil, tudo isso é igualmente verdadeiro. A discriminação racial não é aceitável, como já foi. A parcialidade judicial a favor dos poderosos deixou de ser um procedimento operacional natural. A corrupção política em anos de aparente abundância não mais será aceita. Com certeza, esse é um processo contínuo. Mas é irreversível.

Adaptar-se ao século 21 não é uma tarefa fácil. Tentar retroceder cinquenta anos ou mais pode não funcionar. Seguir essa estratégia pode gerar um avanço econômico de curto prazo, mas pouco mais que isso. Um outro pode ser mais eficiente. Como disse Abraham Lincoln – e não P.T. Barnum: “Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, e todas as pessoas por algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”.

É por isso que as eleições de outubro e novembro são tão importantes. A maneira certa de se mover é para a frente. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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